Transtorno do jogo: Especialistas alertam para impactos das apostas on-line na saúde e no trabalho
A Escola Judicial do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (Ejud-4) promoveu, nessa terça-feira (9/6), a palestra “Ludopatia – Saúde mental na era das bets: da aposta recreativa ao transtorno do jogo”. A atividade teve o apoio da Secretaria de Saúde e Assistência do TRT-RS.
O evento reuniu o psiquiatra Daniel Tornaim Spritzer e o juiz do Trabalho Oscar Krost, do TRT da 12ª Região (SC), para discutir como a explosão das plataformas digitais de apostas está transformando o comportamento dos brasileiros e gerando novos desafios para o Direito do Trabalho.
A escala do jogo: Quando o lazer se torna doença
Os especialistas alertam que apostar não é uma atividade de lazer comum, pois envolve arriscar algo de valor em busca de um ganho maior sob a influência do acaso.
O comportamento do apostador transita em um espectro que vai do jogo social ao transtorno do jogo, reconhecido como doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
- Jogador social: Possui limites pré-definidos de tempo e dinheiro, focado apenas no entretenimento.
- Jogador-problema: Possui sintomas de envolvimento com apostas.
- Transtorno do jogo: Jogadores que preenchem critérios diagnósticos para transtorno do jogo, com sintomas similares à dependência química.
- Transtorno do jogo de modo grave: pessoas com transtorno de jogo com agravamento do nível anterior.
Principais sintomas e critérios de diagnóstico:
- Tolerância: Necessidade de apostar quantias cada vez maiores para obter a mesma sensação de prazer.
- Abstinência: Inquietação e irritabilidade ao tentar reduzir ou interromper as apostas.
- Escapismo: O jogo passa a ser utilizado como uma fuga de sentimentos de angústia, estresse ou depressão.
- Perseguição (chasing): O comportamento compulsivo de voltar a jogar imediatamente para tentar recuperar o dinheiro perdido.
- Prejuízo social: Mentiras para familiares e terapeutas sobre o envolvimento com apostas e comprometimento do patrimônio e da carreira profissional.
O perigo do ambiente digital
Diferente dos jogos de azar tradicionais do passado, as "bets" modernas operam em um ambiente de alta toxicidade digital. Com disponibilidade 24 horas por dia, transações via Pix instantâneo e algoritmos desenhados para retenção, o "atrito comportamental" presente em outros vícios, como álcool e cigarro, foi reduzido a zero.
De acordo com os especialistas, apostar por meio de plataformas on-line multiplica em quatro vezes o risco de o indivíduo desenvolver problemas com o jogo em comparação aos métodos tradicionais. Esse fator de risco é tão determinante que supera o impacto da renda, da região geográfica, do sexo e da idade combinados.
Cenário Brasileiro
Os números no Brasil são alarmantes:
- Em 2024, os brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões às apostas, valor que supera o orçamento anual do Ministério da Saúde.
- Houve um salto de 104% nas consultas por jogo patológico no SUS.
- Homens representam cerca de 80% dos apostadores, muitas vezes acreditando erroneamente que dominam as variáveis do jogo esportivo.
- Adolescentes têm quatro vezes mais chances de desenvolver dependência do que adultos, devido ao desenvolvimento incompleto do córtex pré-frontal.
Impactos no mundo do trabalho e a visão jurídica
A ludopatia reflete diretamente na produtividade, com o aumento de faltas e a distração constante durante o expediente.
No campo jurídico, o entendimento sobre o tema está evoluindo. Embora o artigo 482 da CLT, na alínea “k”, ainda mencione o "jogo de azar habitual" como motivo para justa causa (“prática constante de jogos de azar no ambiente de trabalho”), a tendência é de que o ludopata seja tratado como um doente incapacitado, seguindo o exemplo do que ocorreu com o alcoolismo, também previsto nas hipóteses de justa causa.
Diferente de vícios que deixam rastros físicos (como odor de álcool ou cigarro), a dependência digital é silenciosa. O trabalhador pode comprometer todo o seu patrimônio e o sustento da família em poucas horas através do celular, sem sair de seu posto de trabalho.
Reflexos na renda familiar
O impacto financeiro das apostas nas famílias gera uma percepção de queda no padrão de vida, mesmo em períodos de aumento de renda. Como a maioria dos apostadores são homens — que frequentemente perdem dinheiro em segredo —, o sustento da família acaba sobrecarregando as mulheres. Esse cenário torna qualquer ganho salarial real ineficaz, pois o "boom" dos jogos a dinheiro consome os recursos que deveriam ser destinados ao consumo básico e ao bem-estar familiar, influenciando diretamente a percepção da economia nacional.
Caminhos para o tratamento e prevenção
O tratamento principal para o transtorno do jogo é a psicoterapia, que pode ser auxiliada por grupos de autoajuda, como os Jogadores Anônimos, e suporte medicamentoso para tratar comorbidades como ansiedade e depressão.
Como buscar ajuda e prevenir riscos:
- Abertura nas empresas: O tema deve ser tratado como questão de saúde pública e segurança do trabalho, combatendo o estigma.
- Rede pública: O SUS oferece acolhimento universal através das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
- Autoexclusão: O governo federal disponibiliza ferramentas para que o cidadão bloqueie voluntariamente o seu acesso a plataformas de apostas.Abre em nova aba
- Educação: O uso de cartilhas informativas para familiares e profissionaisAbre em nova aba é essencial para identificar precocemente os sinais de risco.
Clique para acessar:
Cartilhas Educativas sobre Prevenção e Apoio em Problemas com Apostas.Abre em nova aba
Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostasAbre em nova aba
Artigos do juiz Oscar Krost:
Ludopatia não é piadaAbre em nova aba
“Crônica de uma morte anunciada”: a epidemia das apostas online no BrasilAbre em nova aba
“Bets” e riscos psicossociais: uma aposta casada para o Direito do TrabalhoAbre em nova aba


