Recuperandos da APAC convidam o público a ver através do olhar do outro, em mostra de fotos no TRT-RS
O Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS) inaugurou, na quinta-feira (27/8), a exposição “O Mundo de Ponta Cabeça”, na Galeria Lenir Heinen, no Foro Trabalhista de Porto Alegre.
As produções fotográficas fazem parte do projeto “Caixas de Luz”, desenvolvido e coordenado pelo professor Flávio Fontana Dutra, sobre fotografias no contexto prisional.
A exposição acontece até o dia 23 de setembro e está aberta a visitação do público de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h.
Confira o álbum de fotos.Abre em nova aba
O Mundo de Ponta Cabeça
Organizada pelo Memorial do TRT-RS, a iniciativa celebra a parceria entre a Justiça do Trabalho gaúcha e a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC).
“Quando eu passei a participar da direção da APAC, preocupado em buscar parcerias para ensejar o projeto de cumprimento de pena humanizado, eu pensei, de cara, no Tribunal Regional do Trabalho”, disse Celso Rodrigues, um dos diretores da associação, ressaltando o papel do tribunal na garantia de espaços de inclusão social.
Representando o TRT-RS, o desembargador Cláudio Antônio Cassou Barbosa falou sobre a contribuição dessa mostra cultural para a mudança de perspectiva da sociedade. “Na correria do dia a dia não nos damos conta das coisas que estão a nossa volta. Essa exposição ajuda a enxergar de outra maneira as pessoas que estão lá [recuperandos] e o mundo que nos cerca”, disse o desembargador.
Flávio Fontana Dutra faz parte das atividades de laborterapia da APAC há mais de 2 anos. Durante o discurso, o coordenador do projeto falou em nome dos recuperandos e trouxe o depoimento gravado de três dos artistas da mostra.
“Quem tiver contato com essas fotos, eu digo que não procurem a perfeição do digital, procurem ver com o nosso olhar... Tem uma foto que eu gosto muito de olhar, que é um vaso com flor. O olhar que eu tenho para essa foto é de um mundo diferente, onde tem um portal, um portal para outro mundo”, relatou um dos artistas, no depoimento em áudio.
Nas palavras de Flávio, quem ajudou a dar o nome à exposição foi Cleber, um homem que fazia parte do projeto, mas hoje não está mais na APAC. Ele aparece retratado em uma das fotos, em que está de cabeça para baixo. Ao explicar como funciona o registro da imagem, o coordenador sempre dizia aos recuperandos que a foto ficava invertida no filme fotográfico. O que Cleber contrariou, registrando a cena dele “plantando bananeira” e fazendo surgir a ideia do nome “O Mundo de Ponta Cabeça”.
O projeto
“Caixas de Luz” surgiu como tese de doutorado de Flávio pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A ação possibilita a construção das máquinas fotográficas, assim como o aprendizado de fundamentos da fotografia pelas pessoas privadas de liberdade.
Fazendo uso de “IA” – como é definido o conceito de “inteligência analógica” por um dos participantes do projeto -, as obras tomam forma por meio – de processos criativos espontâneos no próprio espaço da APAC. As câmeras pinhole são fabricadas com peças de MDF – doadas pela UFRGS –, latinhas de alumínio e filme fotográfico. Algumas das fotos foram registradas com câmeras feitas com caixa de fósforo.
As máquinas fotográficas pinhole estão à venda por R$ 90,00 no espaço da mostra, assim como um livro de dobradura infinita com fotografias da mostra. Para acompanhar a iniciativa, é possível seguir o perfil do projeto no Instagram pelo @caixas_de_luz.


