Marca da Justiça do Trabalho da 4ª Região, composta por traços que formam, simultaneamente, as letras J e T entrelaçadas, e a representação de uma pessoa. A cor predominante é o azul escuro, mas também há detalhes em amarelo e verde nas letras J e T. Abaixo desse símbolo, vem o nome "Justiça do Trabalho" e, em letra menor, a identificação "TRT da 4ª Região (RS)" Selo Diamante no Prêmio CNJ de Qualidade 2025
Publicada em: 28/08/2026 08:09. Atualizada em: 28/08/2026 08:10.

“Mormente": Pode parecer difícil, mas você consegue viver sem ele.

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Arte da editoria Na Ponta da LínguaPalavra que é quase um "carimbo" em petições e sentenças, mas que raramente ouvimos em uma conversa fora das salas de audiência, o advérbio “mormente” parece quase impossível de substituir, mas hoje veremos que isso não é bem verdade. Aliás, é mais fácil do que parece. 

Para quem vive o Direito, a expressão soa muito familiar, mas para a grande maioria das pessoas, essa é uma palavra que exige um esforço extra de interpretação.

O termo vem da contração de “mor” (redução de “maior”, do Latim, “major”) e “-mente” (sufixo usado para formar advérbios, indicando modo ou maneira. Significa, basicamente, “de maneira maior”, “de forma principal”, "principalmente", "sobretudo" ou "especialmente". No cotidiano dos tribunais, ele é usado para destacar uma razão principal ou um argumento mais relevante.

Por que evitar?

O problema de "mormente" não é gramatical, mas sim de acessibilidade. Por ser uma palavra que caiu em desuso na linguagem comum, ele acaba se tornando um pequeno obstáculo no texto.

Mas você deve estar se perguntando: como se sabe que uma palavra tem pouco uso na linguagem comum? Aí é que entra o corpus.  O corpus de uma língua é um conjunto grande e organizado de textos escritos ou falados, reunidos de forma planejada para servir de base em pesquisas linguísticas. 

O Corpus do Português é um vasto conjunto de textos da língua portuguesa, criado e mantido pelos pesquisadores Mark Davies e Michael J. Ferreira. Atualmente, o acervo conta com mais de 1 bilhão de palavras, cobrindo do século XIII ao XXI. O projeto permite analisar a evolução da língua ao longo dos séculos, pesquisar a frequência de uso de palavras e comparar variantes e estruturas linguísticas em diferentes épocas e regiões.

Os dados extraídos do Corpus do Português sobre as palavras “mormente” e “principalmente”, por exemplo, comprovam uma grande disparidade no uso real dessas palavras. Enquanto "principalmente" registra 186.484 ocorrências no corpus (frequência de 118,33 por milhão), a palavra "mormente" aparece apenas 1.576 vezes (frequência de 0,01 por milhão). Na prática, "principalmente" é cerca de 118 vezes mais frequente na língua portuguesa do que mormente. Além disso, as palavras associadas a "mormente" reforçam seu caráter arcaico e restrito ao jargão técnico (ela aparece ao lado de palavras como inquérito, réus, constitucionais e circunstâncias, princípios), ao passo que "principalmente" conecta-se ao uso cotidiano e amplo da linguagem (aparece ao lado de palavras como nós, gente, resultados, aumento, etc). 

Com isso, é fácil inferir que "mormente" fica restrito a nichos específicos e formais (direito/jurídico), e isso dificulta a compreensão do público geral que não tem formação jurídica. “Principalmente", ao contrário, pertence ao vocabulário vivo e comum da língua. É uma palavra muito mais conhecida.

Quando o leitor (leigo ou não) encontra um "mormente" no texto, o fluxo da leitura é dificultado. Em vez de focar no argumento jurídico, o cérebro precisa, por um milésimo de segundo, "traduzir" o termo. Se você multiplicar isso por várias palavras rebuscadas em um único parágrafo, o resultado é um texto complexo e distante da realidade e uma mente cansada ao final do dia.

Substituir para esclarecer

O Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples nos convida a refletir: se temos palavras que todo mundo entende, por que escolher a que poucas pessoas conhecem? Substituir "mormente" por "especialmente" ou "principalmente" não retira o brilho do seu texto; pelo contrário, dá a ele clareza e eficiência.

Veja como a substituição funciona na prática:

Em vez de escrever:

Escreva assim:

O risco de dano é evidente, mormente diante da natureza alimentar da verba pleiteada.

O risco de dano é evidente, principalmente diante da natureza alimentar do valor pedido.

A prova testemunhal confirmou a jornada exaustiva, mormente no período de safra.

A prova testemunhal confirmou a jornada exaustiva, especialmente no período de safra.

A responsabilidade da empresa é clara, mormente pelo descumprimento das normas de segurança.

A responsabilidade da empresa é clara, sobretudo por ter descumprido as normas de segurança.


Resumindo:

  • Mormente é sinônimo de principalmente, especialmente ou sobretudo.

  • É uma palavra pouco comum no português atual. É um termo erudito que pode dificultar a compreensão imediata por quem não tem familiaridade com o Direito.

  • Sempre que possível, substitua “mormente” por suas equivalentes mais conhecidas. Pode parecer difícil, mas você consegue viver sem ele.

  • Ao trocar palavras complexas por alternativas mais simples, você mantém a precisão jurídica e garante que sua mensagem seja entendida por todas as pessoas, sem ruídos.

Ah, e se quiser saber mais sobre linguagem simples, suas diretrizes e exemplos do que evitar e o que usar, acesse o Manual Prático de Linguagem Simples do TRT-RS, disponível na página da Linguagem Simples do TRT4. 

Por hoje era isso.

Até a próxima!

Lara Martins
Servidora do TRT-RS Assessora de Promoção do Acesso à Justiça Graduada em Letras, com pós-graduação em Direito Administrativo

arte com a expressão: Linguagem Simples - Entender é nosso direito

 
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Fonte: Asprodec/TRT-RS
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