“Mormente": Pode parecer difícil, mas você consegue viver sem ele.
Palavra que é quase um "carimbo" em petições e sentenças, mas que raramente ouvimos em uma conversa fora das salas de audiência, o advérbio “mormente” parece quase impossível de substituir, mas hoje veremos que isso não é bem verdade. Aliás, é mais fácil do que parece.
Para quem vive o Direito, a expressão soa muito familiar, mas para a grande maioria das pessoas, essa é uma palavra que exige um esforço extra de interpretação.
O termo vem da contração de “mor” (redução de “maior”, do Latim, “major”) e “-mente” (sufixo usado para formar advérbios, indicando modo ou maneira. Significa, basicamente, “de maneira maior”, “de forma principal”, "principalmente", "sobretudo" ou "especialmente". No cotidiano dos tribunais, ele é usado para destacar uma razão principal ou um argumento mais relevante.
Por que evitar?
O problema de "mormente" não é gramatical, mas sim de acessibilidade. Por ser uma palavra que caiu em desuso na linguagem comum, ele acaba se tornando um pequeno obstáculo no texto.
Mas você deve estar se perguntando: como se sabe que uma palavra tem pouco uso na linguagem comum? Aí é que entra o corpus. O corpus de uma língua é um conjunto grande e organizado de textos escritos ou falados, reunidos de forma planejada para servir de base em pesquisas linguísticas.
O Corpus do Português é um vasto conjunto de textos da língua portuguesa, criado e mantido pelos pesquisadores Mark Davies e Michael J. Ferreira. Atualmente, o acervo conta com mais de 1 bilhão de palavras, cobrindo do século XIII ao XXI. O projeto permite analisar a evolução da língua ao longo dos séculos, pesquisar a frequência de uso de palavras e comparar variantes e estruturas linguísticas em diferentes épocas e regiões.
Os dados extraídos do Corpus do Português sobre as palavras “mormente” e “principalmente”, por exemplo, comprovam uma grande disparidade no uso real dessas palavras. Enquanto "principalmente" registra 186.484 ocorrências no corpus (frequência de 118,33 por milhão), a palavra "mormente" aparece apenas 1.576 vezes (frequência de 0,01 por milhão). Na prática, "principalmente" é cerca de 118 vezes mais frequente na língua portuguesa do que mormente. Além disso, as palavras associadas a "mormente" reforçam seu caráter arcaico e restrito ao jargão técnico (ela aparece ao lado de palavras como inquérito, réus, constitucionais e circunstâncias, princípios), ao passo que "principalmente" conecta-se ao uso cotidiano e amplo da linguagem (aparece ao lado de palavras como nós, gente, resultados, aumento, etc).
Com isso, é fácil inferir que "mormente" fica restrito a nichos específicos e formais (direito/jurídico), e isso dificulta a compreensão do público geral que não tem formação jurídica. “Principalmente", ao contrário, pertence ao vocabulário vivo e comum da língua. É uma palavra muito mais conhecida.
Quando o leitor (leigo ou não) encontra um "mormente" no texto, o fluxo da leitura é dificultado. Em vez de focar no argumento jurídico, o cérebro precisa, por um milésimo de segundo, "traduzir" o termo. Se você multiplicar isso por várias palavras rebuscadas em um único parágrafo, o resultado é um texto complexo e distante da realidade e uma mente cansada ao final do dia.
Substituir para esclarecer
O Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples nos convida a refletir: se temos palavras que todo mundo entende, por que escolher a que poucas pessoas conhecem? Substituir "mormente" por "especialmente" ou "principalmente" não retira o brilho do seu texto; pelo contrário, dá a ele clareza e eficiência.
Veja como a substituição funciona na prática:
Resumindo:
Mormente é sinônimo de principalmente, especialmente ou sobretudo.
É uma palavra pouco comum no português atual. É um termo erudito que pode dificultar a compreensão imediata por quem não tem familiaridade com o Direito.
Sempre que possível, substitua “mormente” por suas equivalentes mais conhecidas. Pode parecer difícil, mas você consegue viver sem ele.
Ao trocar palavras complexas por alternativas mais simples, você mantém a precisão jurídica e garante que sua mensagem seja entendida por todas as pessoas, sem ruídos.
Ah, e se quiser saber mais sobre linguagem simples, suas diretrizes e exemplos do que evitar e o que usar, acesse o Manual Prático de Linguagem Simples do TRT-RS, disponível na página da Linguagem Simples do TRT4.
Por hoje era isso.
Até a próxima!
Lara Martins
Servidora do TRT-RS Assessora de Promoção do Acesso à Justiça Graduada em Letras, com pós-graduação em Direito Administrativo



