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23/09/2021 16:18

ENTREVISTA: Servidora Sônia Johann, surda, fala sobre o convívio com a deficiência e o trabalho no TRT-RS

Início do corpo da notícia.
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SoniaEntrevista.jpgQuando uma pessoa que fala muito baixo chegava, antes da pandemia, ao balcão da 15ª Vara do Trabalho de Porto Alegre, a servidora Sônia Johann poderia sentir alguma dificuldade. Mas esses casos eram rapidamente resolvidos ao chamar um colega de Secretaria para fazer aquele atendimento específico, e ela prosseguia nas atividades de atendente no balcão e de agilizar andamentos processuais, funções que exerce, dentre outras, desde 1994 na unidade judiciária.

Sônia tem 58 anos e é surda desde criança. Sem o aparelho auditivo que utiliza diariamente, ouve apenas 30%. Com o equipamento, consegue chegar a 75% da audição. "Meus colegas lidam com isso de forma muito natural, tudo é resolvido sem problemas. Me sinto muito acolhida na 15ª VT. Já sou patrimônio histórico de lá", brinca.

Analista da área judiciária, ela ingressou no TRT da 4ª Região no primeiro concurso a reservar cotas para pessoas com deficiência. Trabalhou por apenas dois meses em uma unidade de Novo Hamburgo e foi transferida para a 15ª VT de Porto Alegre. É separada, mora com os três filhos e hoje tem uma vida mais tranquila, mas nem sempre foi assim: nesta entrevista à Secretaria de Comunicação Social, ela falou das dificuldades por que passou por ser surda, mas também das alegrias saboreadas a cada conquista na vivência com sua deficiência.

Essa conversa faz parte de uma série de entrevistas que a Secom está realizando em função do Fórum em Defesa da Inclusão, Acessibilidade e Não-Discriminação das Pessoas com Deficiência. O evento ocorre on-line até o dia 30 de setembro, com palestras e debates a respeito de temas relacionados à deficiência. Saiba mais clicando aqui. Leia, também, a primeira entrevista feita pela Secom, com a servidora Juliana Peracini da Costa.

Sônia, qual foi a causa da sua surdez?

Eu nasci com gripe e essa gripe evoluiu para uma otite, que ao longo do tempo se tornou recorrente. Tive muitas infecções nos ouvidos. Fiz cinco cirurgias em cada um deles. A primeira aos dez anos, a última aos 20. Tenho uma irmã que também teve otite, mas que não se tornou surda.

Você sempre estudou em escolas regulares. O que lembra dos primeiros anos no colégio? Enfrentou dificuldades devido à surdez?

Sim, os três primeiros anos foram muito difíceis, bem traumatizantes. Eu estudava em uma escola de freiras, muito rígida. Alguns professores chegaram a cometer atos de discriminação por causa da minha surdez. Mas na época eu não tinha consciência disso. Eu não gostava de estudar, detestava ir à escola, mas meus pais sempre insistiram. Eu não sabia que era por não conseguir ouvir o que os professores diziam. No terceiro ano, exigi que meus pais me trocassem de escola. Fui estudar em uma escola estadual. As dificuldades continuaram, mas o ambiente melhorou um pouco, inclusive a escola era bem mais perto de casa.

Você disse que não tinha consciência da surdez. Quando passou a entender melhor as questões da deficiência?

Eu sou de Tenente Portela e vim para Porto Alegre com 16 anos. Foi aí que comecei a procurar trabalho e entendi que minhas dificuldades existiam por causa da surdez. Fui fazer curso de turismo em Porto Alegre e sentia muitas dificuldades. Minha irmã também fazia o mesmo curso. Eu anotava o que conseguia ouvir nas aulas e deixava espaços em branco. Chegava em casa, pegava os cadernos da minha irmã, via o que ela tinha anotado e completava as minhas próprias anotações. Era uma grande batalha. Desisti do curso depois de um ano e meio na faculdade, porque não conseguia acompanhar.

Foi nessa época que você teve a recomendação do aparelho auditivo? Como foi?

Sim. Foi um médico que fazia as minhas cirurgias que indicou. Tudo mudou muito na minha vida depois do aparelho. Eu lembro que no primeiro dia em que usei, fui em um banco, no centro de Porto Alegre, em que minha irmã trabalhava, e perguntei a ela se eles sempre ficavam naquele barulhão. Ela disse "mas que barulhão?"... Era o ar condicionado, os carros na rua, tudo que eu não conseguia ouvir antes e agora ouvia. Pra ter uma ideia, eu tiro o aparelho pra dormir e, se não colocar logo que acordo, não consigo ouvir nem o canto dos passarinhos. Com o aparelho eu consigo.

Seria possível você falar um pouco mais do seu aparelho, para que os leitores tenham ideia do funcionamento?

Existem vários tipos de aparelho auditivo, para cada tipo de surdez... O meu é um que tem um molde dentro do ouvido e um foninho, com uma pilha mais ou menos do tamanho de uma pilha de relógio, que fica atrás da orelha. O meu não é dos menores aparelhos, porque para meu tipo de problema auditivo os outros não dariam certo. É um aparelho alemão, mas pode ser comprado em lojas aqui no Brasil. Custa cerca de R$ 5 mil.

Você fez faculdade de Direito depois de começar a usar o aparelho, certo? Foi muito diferente?

Sim, fiz Direito em Blumenau, Santa Catarina. Foi tudo diferente. Eu me concentrava bastante nas aulas, consegui acompanhar bem o curso, também arranjei emprego em um escritório de advocacia... Depois fiz concurso para a Justiça Comum, trabalhei cinco anos no Fórum em Blumenau.

Você sente dificuldades no trabalho junto ao TRT? Teria algo que pudesse ser mudado para facilitar seu trabalho?

Eu não sinto dificuldades. Sou muito bem quista na Secretaria, o pessoal trata tudo com muita naturalidade. Se precisar repetir mil vezes eles repetem sem irritação, quando tenho dificuldades para entender uma pessoa eu peço e um colega faz aquele atendimento. Sei que outras pessoas surdas têm outros tipos de dificuldades, mas como não convivi com elas ao longo da vida, não posso falar. Inclusive, passei a conviver com a colega Luisa, também da 15ª VT, que faz leitura labial, e passei a entender melhor como algumas coisas funcionam para outras pessoas surdas. Mas pessoalmente não tenho problemas.

O que gosta de fazer fora do trabalho?

Quando as aglomerações eram possíveis, eu gostava muito de reunir a família. Somos em oito irmãos! Fora isso, gosto muito de ler... Leio romances, livros sobre espiritualidade... Gosto de ouvir música também.

Olha que interessante... Geralmente as pessoas não ligam o gosto de ouvir música a uma pessoa com surdez…

Sim. Antes de utilizar o aparelho, eu já havia descoberto que se eu encostasse os dentes na caixa de som, eu conseguia entender melhor as palavras, a vibração do som. Descobri isso sozinha, são as soluções que a gente vai arranjando. Hoje com o aparelho não precisa mais. Mas ainda tenho dificuldades para assistir televisão, dependendo de como ocorrem as falas eu me perco um pouco. Mas gosto de assistir séries.

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Fonte: texto de Juliano Machado (Secom/TRT-RS), foto do arquivo pessoal de Sônia Johann
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