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16/09/2021 15:19

ENTREVISTA: "A educação para a acessibilidade inicia com pequenas mudanças de comportamento e atitude", diz Juliana da Costa, servidora do TRT-RS

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Juliana Peracini da Costa.jpgJuliana Peracini da Costa tem 34 anos. Nascida em Uberaba (MG), trabalhou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa daquele estado e na Receita Federal no Rio Grande do Sul. Desde maio de 2013, é servidora do TRT-RS. Ela iniciou as atividades na Seção de Apoio Jurídico e Análise de Sanções. Seis anos depois, tornou-se assistente-chefe da unidade.

Em 2009, tomou posse na Receita Federal, em Cruz Alta. A vinda para o Sul teve um motivo especial: viver com o namorado, o jornalista Juliano Machado, lotado na Secretaria de Comunicação Social do TRT-RS. Eles se conheceram pela internet, em 2007. O primeiro encontro aconteceu em evento sobre software de leitura de telas, em Joinville, Santa Catarina.

Um tumor, chamado retinoblastoma, exigiu uma intervenção cirúrgica que a deixou cega aos dois meses de idade. Os pais, o comunicador Felício e a professora Maria Aparecida, também são cegos. A irmã mais velha, Letícia, filha do primeiro casamento da mãe, não possui deficiência.

A característica não a impede de levar uma vida normal. Ela auxilia informalmente o pai, que é presidente do Instituto de Cegos do Brasil Central, em Uberaba. Antes da pandemia, fazia academia, ia a barzinhos, trabalhava fora de casa. Teve a oportunidade de estudar em escola regular.  Aprendeu datilografia braille, orientação e mobilidade, utilização de bengala e demais técnicas de locomoção. Em 2019, concluiu a graduação em Direito pela UniRitter.

Quanto ao TRT-RS, Juliana considera haver uma caminhada muito exitosa e bem conduzida a fim de tornar o Tribunal acessível, tanto nas questões tecnológicas e arquitetônicas, quanto do ponto de vista cultural. “A instituição permite que as pessoas com deficiência tenham as ferramentas para trabalhar onde elas estiverem, incluindo cargos de direção. Se a gente pretende uma sociedade mais igualitária e inclusiva, tem que ter todos em todos os lugares, também nos cargos de decisão. Tanto a gestão atual como as anteriores têm trabalhado para esse ambiente de acessibilidade. Eu me sinto muito orgulhosa em ser servidora do Tribunal do Trabalho, nesse momento em que estamos construindo essa cultura institucional”, afirma.

Na entrevista a seguir, conheça um pouco da história da Juliana.  Inscreva-se no Fórum em Defesa da Inclusão, Acessibilidade e Não Discriminação das Pessoas com Deficiência. O evento vai de 21 a 30 de setembro, com transmissão pelo Canal de Ejud4 no Youtube e pela plataforma Zoom. Faça aqui sua inscrição.

Juliana, como foi tua formação escolar e acadêmica?

Nos meus primeiros anos, até a quarta série, estudei em uma escola especializada para deficientes visuais. Fui alfabetizada no sistema braille, de escrita e leitura. Aprendi também as outras técnicas, como o soroban, que usamos para fazer cálculos matemáticos.

A partir da quinta série, eu fui para a escola regular. Estudei até o ensino médio e a faculdade sempre no ensino regular. Contei com o apoio da instituição da minha cidade, que produzia material adaptado, material em braille, e gravava conteúdos quando era preciso.

Eu posso dizer que foi uma trajetória muito feliz. Sempre tive apoio dos meus professores e colegas. Nunca tive problemas de não conseguir estudar ou de não me sentir incluída na sala de aula.

Claro que o país está longe de estar 100% preparado. A escola não conseguia atender a todas as necessidades, tanto que eu precisava da instituição para produzir os materiais adaptados. Mas, fora isso, sempre foi tudo dentro do adequado.

Da tua infância até agora, quais foram as mudanças que tu consideras mais importantes?

Quando eu tinha por volta de 11 anos, meu pai e eu começamos a descobrir as questões de informática e dos softwares leitores de tela. A partir daí,  o nosso conhecimento foi avançando e os softwares também foram evoluindo muito. Isso facilitou imensamente a minha vida. Foi um divisor de águas. A partir da informática e do acesso à internet, passei a ter muitos materiais e a trocar conhecimento com outras pessoas.

A faculdade, por exemplo, eu já fiz toda com meu notebook. Não utilizei mais o método braille para escrever, porque é muito lento e volumoso. Isso contribuiu decisivamente na minha formação.

Em termos sociais, houve mudanças em relação à forma como as pessoas com deficiência são tratadas?

Sim, há uma diferença muito grande porque na época da minha infância e na adolescência, embora já estivessem começando a falar sobre isso, a inclusão nas escolas ainda era o nosso ideal. Era um sonho, uma coisa que estava nascendo e poucas escolas tentavam fazer isso funcionar. Eu tive a sorte de estudar em uma escola muito próxima da instituição especializada na educação de pessoas cegas e havia uma parceria entre elas. Então, a escola realmente queria que aquilo desse certo. Mas nem todo mundo teve essa oportunidade. As escolas patinavam ainda.

Hoje em dia, embora ainda haja uma caminhada muito, muito longa, ainda tem muita coisa para ser feita. Eu acho que tanto as escolas quanto a sociedade já sabem que a educação inclusiva, nas escolas regulares, é um direito de todas as pessoas com deficiência. E as escolas têm que prover, elas têm que fazer acontecer. Esse foi um avanço importante.

Com relação às pessoas, penso que é um avanço natural do mundo. Na minha época de infância e adolescência, já não era tão ruim, e hoje talvez seja menos. Quanto mais as pessoas com deficiência aparecem e quanto mais conviverem em sociedade, esse estranhamento e talvez até o preconceito tendem a diminuir.

Como eu disse, nessa escola que eu estudei, por ter uma parceria com a instituição, várias outras pessoas já tinham passado por ela antes, estavam passando no meu momento e passaram depois. Então, lá, todos os estudantes já conviviam em um ambiente onde a deficiência era tratada com mais naturalidade.

O que pode haver de melhorias com relação à acessibilidade?

Antes de a gente pensar em acessibilidade tecnológica e arquitetônica, a acessibilidade é uma questão de cultura. Fazendo um comparativo com o passado: quando fizeram campanhas para uso do cinto de segurança, isso se tornou uma coisa natural. Hoje quem não usa é considerado até brega. Então é preciso que tenhamos algo semelhante em relação à acessibilidade. Por exemplo, educação para acessibilidade, porque ela surge a partir de pequenas mudanças de comportamento e de atitude. A partir daí, muita coisa pode ser feita.

Além disso, é qualificação. Falta hoje em dia, principalmente para os profissionais de Educação, apoio e qualificação. O sonho da inclusão é que em uma sala de aula possa haver alunos sem deficiência, alunos com deficiência visual, autistas, alunos surdos. Só que o professor é um só em uma sala de 40 alunos. Então primeiro ele precisa saber o que vai fazer com cada um e precisa de apoio. Porque apenas colocar ele lá com os alunos seria apenas uma inclusão "para inglês ver". Uma inclusão verdadeira depende de qualificação, para que o professor saiba interagir tanto com as necessidades quanto com as potencialidades de cada aluno.

Essas seriam as principais mudanças na minha opinião. A grande mudança é cultural.

Alguns deficientes visuais narram que as pessoas não se dirigem diretamente a eles. Acabam provocando uma verdadeira “tradução do Português para o Português” em uma conversa.  Há alguma situação que te constranja ou que tu gostaria que as pessoas mudassem a forma de abordagem?

Sim, isso de não falarem diretamente com a gente é clássico. Eu acho que o principal é que as pessoas precisam entender que uma pessoa com deficiência tem apenas uma peculiaridade, como todo mundo tem. Cada um de nós é de um jeito. Uns são mais rápidos, outros mais lentos no raciocínio. Uns são muito agitados, outros mais preguiçosos. A deficiência é só mais uma característica.

É preciso que tratem as pessoas com deficiência como elas tratam qualquer outra. A gente tem uma brincadeira que diz que as pessoas entram em um modo de funcionamento muito estranho quando veem uma pessoa com deficiência. Elas começam a fazer coisas que elas jamais fariam em outras interações.

Então, falando diretamente: falem com elas de modo normal. A não ser que elas peçam, não é preciso 'berrar', pode falar no tom normal. Não fique encostando nas pessoas sem pedir licença, porque ninguém gosta disso.

Pergunta para a pessoa se ela quer ajuda, antes de ajudar. Pois às vezes ela não está precisando de ajuda ou naquele momento ela está estressada.

Às vezes a pessoa tenta fazer algo especial e dá mais errado. Elas pensam tão pouco em algumas situações, que acaba se tornando algo engraçado. Há quem dê ajuda para atravessar e leve apenas até o canteiro. Isso era até uma piada do Geraldo Magela (humorista). Mas já aconteceu comigo. Então, você imagina. Se não tem como me ajudar a atravessar toda a rua, não adianta me deixar em um canteiro. O que eu vou fazer em um canteiro? Então, aja normalmente dentro dos padrões de cortesia e urbanidade que você usaria com qualquer outra pessoa.  

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Fonte: Sâmia de Christo Garcia (Secom/TRT4). Foto: Inácio do Canto
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