Artigo em ZH: "Agosto Lilás: um nome na agenda", de autoria da juíza Maria Cristina Santos Perez e da desembargadora Maria Silvana Rotta Tedesco
Texto originalmente publicado no jornal Zero Hora, edição de 21 de agosto de 2026.
O Agosto Lilás não é uma cor no calendário. É o mês que relembra a Lei Maria da Penha e nos obriga a perguntar: o que protege uma mulher antes de a violência virar boletim de ocorrência? Nancy Fraser ensina que a justiça de gênero tem duas faces: distribuir recursos e reconhecer sujeitos. De pouco serve a rede de serviços se a mulher não é reconhecida como alguém digno de escuta. E Judith Butler lembra que a vulnerabilidade nos constitui: nenhuma vida se sustenta fora de redes de interdependência. Ninguém se salva sozinha.
Daí a sororidade, não como afeto vago entre mulheres, mas como pacto de sustentação mútua. E esse pacto precisa de forma prática. Toda mulher deveria ter um contato de emergência: alguém mais do que uma amiga. Uma pessoa a quem se possa dizer qualquer coisa, inclusive o que ainda não se admitiu para si mesma. Que ele gritou. Que a humilhou diante dos filhos. Que controla o dinheiro, o celular, as roupas. Que a empurrou. Porque a violência não começa no soco: começa na palavra que diminui, no ciúme que isola, no silêncio que constrange. Moral, psicológica ou física, a violência se alimenta do isolamento, e recua quando alguém mais sabe.
Este texto é dedicado à Priscila Rosa da Silva, morta no dia 9 de agosto. Esse contato não julga, não apressa, não exige denúncia imediata. Escuta, registra, permanece. Combina uma palavra-código. Sabe onde estão os documentos. Atende de madrugada. E, quando for a hora, liga para o 180, caminha junto até a delegacia, até o juízo. Quem julga conflitos sabe que muitas histórias chegam tarde.
Chegam tarde porque, no começo, não havia a quem contar. Escolha hoje essa pessoa. Diga a ela que foi escolhida e explique o que isso significa. E aceite ser escolhida por alguém. O lilás só cumpre sua função quando deixa de ser campanha e vira um nome salvo no telefone, e uma promessa de atender. Este texto é dedicado à Priscila Rosa da Silva, morta no dia 9 de agosto, uma dentre as 52 vítimas de feminicídio no Estado do RS neste ano de 2026.
Maria Cristina Santos Perez, juíza auxiliar da Direção da Escola Judicial do TRT-RS.
Maria Silvana Rotta Tedesco, desembargadora e diretora da Escola Judicial do TRT-RS.


