Violência contra a mulher: o avanço do feminicídio e o panorama da proteção no Brasil e no RS
O Brasil vive um cenário alarmante de violência contra a mulher. De acordo com dados do relatório Retratos do Feminicídio no Brasil, de 2026, o país registrou 1.568 feminicídios em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior.
Entre janeiro e março de 2026, foram registradas 399 vítimas de feminicídio, um aumento de 7,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isso significa que uma mulher é morta a cada cinco horas.
O fenômeno, que ocorre quando o crime é motivado pelo menosprezo ou discriminação à condição de mulher, tem ocupado um espaço cada vez maior nas estatísticas criminais.
Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul concentra 38,8% das mortes por feminicídio de toda a região Sul. Mais do que o volume, preocupa a velocidade do crescimento: enquanto a média nacional subiu 4,7%, o índice no Rio Grande do Sul saltou 11,1% entre 2024 e 2025, totalizando 80 mortes confirmadas.
Além das vidas perdidas, o rastro da violência é extenso: em 2025, o estado registrou 258 tentativas de feminicídio e o crime deixou 116 órfãos (filhos com até 18 anos).
Perfil das vítimas e o ciclo da violência
A violência não atinge todas as mulheres da mesma forma: 62,6% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras, enquanto 36,8% são brancas.
Em termos de faixa etária, metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos, mulheres em plena fase produtiva e muitas vezes responsáveis pelo sustento de suas famílias.
O crime é majoritariamente doméstico e cometido por pessoas próximas:
- Em 66,3% dos casos, o assassinato ocorre dentro da residência da vítima.
- Em quase 80% das ocorrências, o autor é o atual ou o ex-companheiro.
- No Rio Grande do Sul, 64,6% dos agressores já possuíam antecedentes criminais, muitos deles com histórico específico de violência doméstica.
Resposta institucional
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) é hoje o segundo maior do país em novos casos de feminicídio, com 502 processos abertos apenas nos primeiros cinco meses de 2026.
O estado ocupa a quarta posição nacional em ações de violência doméstica em geral, tendo concedido 75,4 mil medidas protetivas em 2025 e outras 35,5 mil no primeiro semestre de 2026.
Embora o arcabouço legal brasileiro tenha se tornado mais robusto — com o feminicídio possuindo a maior pena do Código Penal, de 20 a 40 anos de reclusão —, especialistas apontam que o problema central não é mais a falta de leis, mas a capacidade de implementá-las de forma efetiva.
Os números revelam a dificuldade de proteção estatal: das 80 vítimas de feminicídio no Estado, cinco possuíam medida protetiva de urgência vigente no momento do crime. Por outro lado, a maioria delas – 59 mulheres – tinham registro de ocorrência policial prévio por violência doméstica. Já em 2024, das 72 mulheres assassinadas no RS, nove possuíam a medida protetiva.
Essa realidade indica que, em número significativo de casos, a violência letal não tem sido evitada de forma efetiva pelo poder público. A situação expõe os limites da proteção estatal e a necessidade de implementação das leis de modo eficaz. Além disso, reforça que muitas situações de risco permanecem invisibilizadas até o desfecho fatal.
Violência contra a mulher
Confira dados do Relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com as informações mais recentes sobre as diversas formas de violência contra mulher:
40,7% das mulheres brasileiras foi vítima de violência ou agressão ao longo da vida.
Mulheres vítimas relataram, em média, mais de três tipos diferentes de violência no último ano da amostra (2024).
31,4% das brasileiras sofreram ofensas verbais (insulto, humilhação ou xingamento), crescimento de 8 pontos percentuais em relação à pesquisa de 2023.
16,9% relataram ter sofrido agressão física por meio de batida, tapa, empurrão ou chute, maior prevalência registrada desde a primeira edição da pesquisa.
16,1% foram ameaçadas de sofrer algum tipo de agressão física e 95 mil foram vítimas de stalking (perseguição).
1 em cada 10 mulheres sofreram abuso sexual e/ ou foram forçadas a manter relação sexual contra sua vontade em 2024.
8,9% sofreram lesão em decorrência de um objeto que lhes foi atirado, enquanto 7,8% sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento e 6,4% foram ameaçadas com faca ou arma de fogo.
3,9% das respondentes relataram terem tido fotos ou vídeos íntimos divulgados na internet sem seu consentimento.
Considerando a situação conjugal, as divorciadas (60,9%) apresentaram prevalência superior à de solteiras (53%), casadas (44,4%) e viúvas (51,8%). Isto é, o rompimento da relação pode ser mais um fator de vulnerabilidade.
Um dado relevante de ser considerado diz respeito à presença de outros familiares como autores da violência no último ano, tais como pais e mães (5,2%), padrastos e madrastas (4,1%), filhos e filhas (3%), um indício de que a violência contra mulheres, mais do que doméstica, é também intrafamiliar.
Apenas 25,7% das mulheres que sofreram violência no último ano buscaram órgãos oficiais, enquanto 33,8% procuraram órgãos não oficiais (como família e amigos), e 47,4% não fizeram nada.
32,4% das brasileiras com 16 anos ou mais sofreram violência física ou sexual provocada por parceiro íntimo ou ex-parceiro. A média global é de 27%.
A prevalência é maior entre mulheres com idade entre 25 e 34 anos (46,8%) e 45 a 59 anos (44,9%), com ensino fundamental (45,5%), e entre as mulheres negras (41,9%) comparativamente às mulheres brancas (37,8%).
Em relação ao local de residência, mulheres que residem no interior (40,2%) e em capitais e regiões metropolitanas (41,5%) apresentam vitimização muito similar.
A vitimização de mulheres com filhos (43,8%) é maior do que entre as que não possuem filhos (33,7%).
Desrespeito e perda de autoestima: 31,6% afirmam ter sido menosprezadas pelo parceiro íntimo ou ex-parceiro a ponto de se sentirem inúteis.
Intimidação: 30,6% vivenciaram situações em que o parceiro íntimo e/ou ex-parceiro deu chutes ou socos em portas ou paredes quando estava com raiva.
Obstáculo à independência: 17,1% afirmam que o parceiro íntimo e/ou ex-parceiro pediu que elas deixassem de trabalhar ou estudar fora de casa por ciúmes.
Domínio financeiro: 10% relatam que foram impedidas de ter seu próprio dinheiro pelo parceiro íntimo e/ou ex-parceiro.
Onde buscar ajuda?
É fundamental que a sociedade conheça e utilize os canais disponíveis para denunciar a violência contra a mulher. Os principais são:
- Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher. Funciona 24 horas por dia, em todo o território nacional, e oferece orientação, acolhimento e encaminhamento dos casos.
- Disque 190: Em caso de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada imediatamente.
- Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher em Porto Alegre: (51) 3288-2172
- Delegacia de Polícia Online da MulherAbre em nova aba
- Corpo de Bombeiros: Telefone 193
- Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJ-RS
- Ministério Público – Promotoria de Justiça Especializada de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
- Defensoria Pública do Estado do RS – Centro de Referência em Direitos Humanos (0800-644-5556)
Canais internos do TRT-RS
de trabalho dos computadores do TRT-RS.
O Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS) também recebe denúncias de magistradas, servidoras, trabalhadoras mediante terceirização e estagiárias, com tratamento absolutamente sigiloso, pelos seguintes canais:
Subcomitê de Acolhimento de Vítimas de Violência Doméstica, através do e-mail violenciadomestica@trt4.jus.br
Ouvidoria da Mulher e das Ações Afirmativas, localizada no térreo do prédio-sede do Tribunal, pessoalmente ou através do e-mail ouvidoria.mulheracoesafirmativas@trt4.jus.br
Canal de Denúncias Anônimas, disponibilizados nos computadores do Tribunal



