“A sociedade precisa reconhecer que a diversidade humana é a regra, e não a exceção”, diz Renata Covalski Geraldo, servidora do TRT-RS
Trajetórias e Vivências de Pessoas com Deficiência da Justiça do
Trabalho", lançado em pelo TST e Enamat, em 2024.
A técnica judiciária Renata Covalski Geral, de 40 anos, nasceu com microssomia craniofacial de grau severo e microtia. A microssomia compromete o desenvolvimento da face, enquanto a microtia é uma malformação da orelha externa, que causa perda auditiva.
Renata ingressou no TRT-RS em 2013, por meio da reserva de vagas para pessoas com deficiência. Desde 2008, atua como servidora pública.
Atualmente lotada no Gabinete do desembargador Marcelo Ferlin D'Ambroso, ela participa de instituições voltadas ao aperfeiçoamento das políticas públicas destinadas às pessoas com deficiência, incluindo debates em Brasília.
Confira, a seguir, a entrevista concedida à Secom.
O que você pensa a respeito da Lei de Cotas?
A Lei de Cotas desempenha um papel fundamental na construção de uma sociedade mais inclusiva e democrática. Representou um marco na promoção dos direitos das pessoas com deficiência, contribuindo para ampliar as oportunidades de participação social, educacional e profissional. Além de garantir acesso a espaços historicamente inacessíveis, como o mercado de trabalho, a legislação serviu de base para o desenvolvimento de outras políticas públicas de inclusão.
Seus reflexos podem ser observados, por exemplo, nas ações afirmativas adotadas no ensino superior, tanto em instituições públicas quanto privadas, por meio de programas como o ProUni e, mais recentemente, na reserva de vagas em processos seletivos de mestrado e doutorado. Trata-se de uma política que não cria privilégios, mas busca corrigir desigualdades históricas e promover maior igualdade de oportunidades.
É possível traçar uma distinção entre o período anterior à legislação e a atualidade?
Sem dúvida. Há cerca de vinte anos, a sociedade ainda não compreendia plenamente o alcance transformador das ações afirmativas. Muitas vagas destinadas às pessoas com deficiência permaneciam sem preenchimento, tanto no setor público quanto no privado. Em diversos casos, especialmente na iniciativa privada, as contratações ocorriam apenas para demonstrar o cumprimento da legislação e evitar sanções, sem uma preocupação efetiva com inclusão, desenvolvimento profissional ou acessibilidade.
Também predominava a ideia de que as pessoas com deficiência deveriam se contentar com oportunidades limitadas de escolarização e trabalho, sem perspectivas de crescimento ou participação em espaços de decisão.
Hoje, embora ainda existam desafios importantes, observa-se uma mudança significativa. As pessoas com deficiência passaram a reivindicar não apenas o acesso ao mercado de trabalho, mas também oportunidades de qualificação, ascensão profissional, liderança e gestão. Cada vez mais se questiona por que profissionais com deficiência, muitas vezes altamente qualificados, ainda encontram barreiras para ocupar cargos de chefia e posições estratégicas.
Outra transformação relevante no setor privado foi a forma como a inclusão deixou de ser vista apenas como uma obrigação legal e passou a ser compreendida também como um valor institucional e um ativo estratégico.
Surgiram empresas especializadas em diversidade, acessibilidade e inclusão, que auxiliam organizações na construção de ambientes mais diversos, acessíveis e respeitosos. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas a discussão já não se limita ao cumprimento das cotas. Ela envolve pertencimento, representatividade e igualdade de oportunidades para o desenvolvimento profissional.
Houve alguma mudança efetiva em sua vida e no trabalho a partir da legislação?
Sim. A mudança foi significativa. As políticas de inclusão possibilitaram minha inserção na sociedade, ampliaram minha autonomia e me proporcionaram independência financeira. Por meio delas, tive acesso a oportunidades que historicamente são negadas ou dificultadas às pessoas com deficiência, seja na educação, seja no mundo do trabalho.
No entanto, o reconhecimento da pessoa com deficiência como sujeito de direitos e participante legítima dos espaços sociais é uma construção mais recente. Durante muito tempo, a presença de pessoas com deficiência em instituições e empresas era percebida apenas como uma forma de cumprir a legislação.
Hoje, ainda que existam muitos desafios, há uma compreensão crescente de que inclusão não se resume ao preenchimento de vagas, mas envolve participação, permanência e acesso às mesmas oportunidades oferecidas às demais pessoas.
A legislação abriu portas importantes, mas a transformação mais profunda está na mudança de perspectiva. Não é a pessoa com deficiência que precisa se adaptar o tempo todo para caber no mundo. A sociedade precisa reconhecer que a diversidade humana é a regra, e não a exceção. Quando entendemos isso, deixamos de discutir apenas cotas e passamos a discutir pertencimento, acessibilidade e participação em todos os espaços.
O que ainda precisa melhorar no mundo do trabalho e na sociedade de forma geral?
com deficiência seguem ignoradas em processos decisórios ou têm suas
competências subestimadas.
Ainda é necessário avançar no reconhecimento da capacidade das pessoas com deficiência para exercer funções de liderança, gestão, representação institucional e protagonismo social. O capacitismo continua presente no cotidiano, muitas vezes de forma sutil. Não raramente, pessoas com deficiência são ignoradas em processos decisórios ou têm suas competências subestimadas.
Além disso, observa-se uma contradição frequente: muitas organizações defendem a diversidade, mas dedicam pouca atenção ao desenho universal, à acessibilidade e às adaptações razoáveis necessárias para garantir a participação efetiva de todos.
Você tem ou teve alguma atuação relacionada à causa das pessoas com deficiência?
Sim. Sou ativista e atuo na construção de diálogos e no aperfeiçoamento da acessibilidade em instituições públicas e privadas. Atualmente, participo de debates em Brasília e em outros espaços institucionais sobre o aprimoramento das políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência.
Entendo que a defesa desses direitos não é uma pauta partidária, mas uma causa universal, diretamente relacionada à dignidade humana e ao direito de todas as pessoas participarem plenamente da vida em sociedade. Afinal, a deficiência faz parte da experiência humana. Muitas pessoas ainda a associam apenas a condições congênitas, quando uma parcela significativa surge ao longo da vida, em decorrência de doenças, acidentes ou do próprio processo de envelhecimento.
O que você considera mais importante, hoje, para ampliar a inclusão das pessoas com deficiência?
Se há algumas décadas ainda era necessário explicar a importância da Lei de Cotas e justificar sua existência, hoje esse debate está mais consolidado. O desafio atual é discutir a qualidade da inclusão que estamos promovendo. Inclusão não pode significar apenas o preenchimento formal de vagas, especialmente quando determinados grupos permanecem sub-representados nos espaços de trabalho ou sequer são considerados nos processos de contratação.
Por essa razão, defendo que o Brasil avance para uma nova etapa no aperfeiçoamento da Lei de Cotas, inspirando-se em experiências internacionais que reconhecem que as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência não são homogêneas. É preciso discutir mecanismos que garantam maior inclusão das pessoas que enfrentam obstáculos mais significativos à inserção profissional, seja em razão da necessidade de apoios mais intensos, seja por enfrentarem barreiras múltiplas.
A política de cotas foi fundamental para ampliar o acesso ao mercado de trabalho, mas seu aperfeiçoamento deve buscar não apenas o cumprimento de percentuais legais, e sim a efetiva representatividade da diversidade existente entre as pessoas com deficiência. O objetivo é construir uma inclusão mais justa, capaz de alcançar aqueles que historicamente continuam encontrando as maiores dificuldades para ingressar e permanecer nos espaços profissionais e institucionais.


