03/07/2020 16:23

Nota de Pesar – Falecimento do engraxate Alexandre Dresch

Início do corpo da notícia.

O Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS) informa, com pesar, o falecimento de Alexandre Dresch, que atuava como engraxate em frente ao Foro Trabalhista de Porto Alegre. Conhecido pelo apelido de "Alemão", Alexandre faleceu nesta sexta-feira (3/7), na Capital, vítima de câncer.

Em junho de 2019, Alexandre foi tema de uma matéria da editoria  "Nossas Histórias", veiculada no portal Vox. Leia abaixo a íntegra da reportagem.

Ele também inspirou uma crônica do livro "Já Parou pra Ver?", escrito pelos alunos do Projeto Pescar e lançado em dezembro de 2018. A crônica "Alemão", de autoria da aluna Gabrielly Kirschner, inicia na página 31 do livro. Clique aqui para baixar a obra completa.

O TRT-RS presta solidariedade aos familiares de Alexandre, que será sempre lembrado pelo bom humor e pela simpatia com que tratava a todos.

Alexandre Dresch: O engraxate que mobilizou uma rede de simpatia e solidariedade

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alexandrefoto01.jpgHá seis anos, Alexandre Dresch posiciona seu caixote de madeira na sombra de uma árvore em frente ao Foro Trabalhista de Porto Alegre. “Antes eu também trabalhava em outros lugares da cidade e só passava aqui na frente. Mas comecei a fazer amizade com o pessoal e decidi ficar”, explica o engraxate de 44 anos, conhecido pelo apelido de “Alemão”. A presença de Alexandre transformou a sombra na calçada da Avenida Praia de Belas em um local de conversas animadas, onde advogados, servidores, peritos e juízes aproveitam a passagem para fazer uma pausa, se divertir com suas brincadeiras e seguir a rotina do dia contagiados por seu bom humor. 

No início deste ano, contudo, os amigos e clientes perceberam uma mudança em sua aparência e ficaram preocupados com seu estado de saúde: Alexandre está com uma protuberância na mandíbula, abaixo da bochecha direita. Ao saber que ele estava há meses procurando atendimento na rede pública para resolver seu problema sem obter sucesso, a juíza Valdete Severo começou a fazer contatos para tentar ajudá-lo, e logo um grupo de pessoas se organizou para pensar em uma solução. O advogado Felipe Carmona teve a ideia de criar uma vaquinha on-line e levantar fundos para Alexandre custear um tratamento odontológico particular, porque a suspeita inicial era a de que se tratasse de um problema dentário. Rapidamente, a iniciativa contou com a colaboração de advogados, servidores, procuradores, juízes e peritos. “A adesão foi surpreendente, já nas primeiras duas horas conseguimos arrecadar 60% dos R$ 3 mil que tínhamos como meta”, lembra Felipe Carmona. 

A campanha foi divulgada em grupos nas redes sociais e chegou ao conhecimento do dentista José Luiz Fraquelli, que ofereceu atendimento gratuito. “Quando fiquei sabendo que o objetivo era pagar um tratamento de canal, disse que podiam cancelar a vaquinha e mandar o Alemão para o meu consultório”, conta José Luiz. Com o objetivo da campanha atingido, o advogado Felipe Carmona consultou os colaboradores e todos concordaram em entregar diretamente para Alexandre o valor arrecadado, que ultrapassou a meta inicial. O dentista José Luiz Fraquelli está fornecendo um atendimento completo para Alexandre, incluindo tratamentos de canal em três dentes e a colocação de uma prótese, mas concluiu que o problema na mandíbula não está ligado a uma questão odontológica. Alexandre deverá seguir investigando a causa. Há cerca de duas semanas, ele foi atendido no hospital Conceição e foram requisitados exames que lhe trazem novas esperanças para descobrir o motivo de seu problema. 

alexandrefoto02.jpgA rede de solidariedade criada para auxiliar Alexandre chamou a atenção e a história chegou a ser noticiada no jornal Zero Hora. Mas esta não foi a primeira vez que o engraxate recebeu a ajuda dos frequentadores da Justiça do Trabalho. Desde que começou a trabalhar no local, ele é auxiliado por várias pessoas. “A Justiça do Trabalho é uma família. Às vezes temos discussões, mas, quando aparece uma oportunidade de ajudar, todo mundo colabora”, comenta Felipe Carmona. Em 2014, Alexandre precisou ser internado em um hospital por 21 dias, com problemas decorrentes de uma pneumonia, e na ocasião recebeu a visita de advogados que doaram medicamentos e se preocuparam em acompanhar sua recuperação. A caixa de madeira que utiliza em seu ofício e a cadeira de plástico que disponibiliza para seus clientes também foram doações de advogados. Além disso, há cerca de três anos, o advogado Afonso Martha ajuda Alexandre a pagar seu aluguel e garantir sua moradia. Atualmente, o engraxate mora no Morro da Cruz, no bairro São José. “O Alemão é uma pessoa muito querida por todos. Ele inclusive participa das festas de final de ano da OAB aqui na Justiça do Trabalho”, comenta Afonso Martha. 

Natural de Porto Alegre, Alexandre começou a engraxar sapatos aos 12 anos de idade, no centro da capital gaúcha. “Aprendi sozinho. Eu ficava na frente dos hotéis Alfred, Plaza e Master”, relembra. Eventualmente, os hotéis lhe davam alguma refeição ou permitiam que ele tomasse banho e dormisse na garagem para não precisar voltar até sua casa, no Alto Teresópolis. Um dos seus dez irmãos, Daniel, chegou a acompanhá-lo como engraxate algumas vezes. “Naquela época vinham muitos estrangeiros para o Brasil. Às vezes eu amanhecia de bermuda na frente do hotel, louco de frio, aí passava um americano e me dava um dinheiro ou alguma roupa mais quente. Mas eu nunca usei drogas”, relembra. Além de ser engraxate, Alexandre teve vários empregos: trabalhou em um supermercado, em uma fruteira, foi entregador de jornal, vigia em posto de gasolina e atuou na área de limpeza em diversos locais. “Foram períodos curtos. Tinha muito emprego, mas os salários eram baixos. Até me diziam: ´tu sempre volta pra caixa´, porque eu saía do emprego no fim da tarde, pegava o meu caixote e ia engraxar na rua, dava mais dinheiro”, explica. Após sair do seu ponto no centro de Porto Alegre, Alexandre passou um período engraxando sapatos na rua Padre Chagas, e depois começou a circular pela cidade. “Eu caminhava o dia todo e ia parando para engraxar. Fazia a Rodoviária, a Osvaldo Aranha, vinha pela Azenha, aí passava aqui na frente da Justiça do Trabalho e fazia uma graxa ou outra”, relembra. “Depois comecei a fazer amigos, as pessoas me ajudaram, e fiquei por aqui”. 

alexandrefoto03.jpgNos dias de sol, Alexandre chega no seu local de trabalho por volta das dez horas da manhã e atende até as 17 horas. Alguns clientes costumam deixar sacolas com vários sapatos para serem engraxados e entregues mais tarde. Além disso, ele também faz algumas visitas a domicílio. “Ele faz graxa para todo mundo e gosta de conversar com seus clientes sobre as pessoas que conhece. Certa vez, eu estava em uma sessão de julgamento e, quando me preparava para fazer a sustentação oral, o desembargador Juraci Galvão Júnior tomou a palavra e disse: ´Olha, pessoal, quero comentar que o doutor Martha tem 27 pares de sapato em casa que são engraxados pelo Alemão. O próprio Alemão me contou´. Até hoje eu cobro essa história do Alemão, eu digo pra ele: ‘Só uns quatro ou cinco pares deviam ser meus, no máximo, os outros eram da minha esposa´. Mas agora já fiquei com a fama”, diverte-se o advogado Afonso Martha.

Alexandre gosta de falar sobre diversos assuntos durante o trabalho, com grande habilidade para se comunicar. Basta acompanhá-lo por alguns minutos para perceber sua popularidade. As pessoas param a seu lado, perguntam como ele está, fazem piadas sobre futebol e provocam o colorado em tom de brincadeira. Alemão inclusive foi tema de uma crônica no livro “Já Parou pra Ver?”, obra escrita pelos alunos do Projeto Pescar que reúne textos sobre fatos e personagens marcantes do cotidiano ao redor do Foro Trabalhista de Porto Alegre (clique aqui para baixar a versão completa do livro). “Ele conversa com todo mundo e, mesmo com todas as dificuldades, busca enxergar a vida com otimismo e bom humor”, comenta o servidor Rafael Sabini Scherer, que lamenta que pessoas com poucas condições financeiras tenham dificuldades para conseguir atendimento quando estão com problemas de saúde. “A solução é a solidariedade, para dar algum amparo quando o Estado não dá. Em uma sociedade cada vez mais individualista, essa atitude é um alento”, observa. A juíza Valdete Severo, que participou ativamente da campanha, acredita que a mobilização também foi importante para tirar Alexandre da invisibilidade. “Por mais que ele estivesse sempre aqui na frente da Justiça do Trabalho, para muitos ele era apenas um rapaz que estava engraxando sapatos. Agora as pessoas sabem quem ele é, perguntam se ele está melhor de saúde. Alexandre é uma pessoa incrível, que está sempre sorrindo, mesmo com uma situação de vida difícil”, reflete a juíza. 

Enquanto aguarda um novo atendimento para investigar seu problema de saúde, Alexandre se mantém animado e confiante, e segue se dedicando com empenho ao ofício de engraxate. Ao comentar todo o apoio recebido, ressalta que só consegue sentir gratidão. “Sem a ajuda do pessoal aqui da Justiça do Trabalho eu estaria desamparado”, conclui.   

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Fonte: Secom/TRT-RS
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