30/08/2019 12:40

Roda de conversas reúne lideranças indígenas na Escola Judicial do TRT-RS

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roda de conversas com lideranças guarani na Escola Judicial
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Lideranças indígenas mbya-guarani participaram de uma roda de conversas na Escola Judicial do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS). O evento contou com a participação do antropólogo José Otávio Catafesto de Souza, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). No encontro, foram abordadas as retomadas Yvyrupá ocorridas no Estado (Maquiné, Terra de Areia, Rio Grande e Ponta do Arado, em Porto Alegre), que consistem no retorno dos povos originários aos seus territórios ancestrais.

Na abertura do evento, André Benites, líder da aldeia localizada em Maquiné, falou sobre o conceito de “retomada”, que vem sendo utilizado pelos guarani no Rio Grande do Sul desde 2017. “A expressão surgiu em Maquiné porque precisávamos encontrar uma palavra para explicar nossa situação para os juruás [não indígenas, em guarani]. Muitas vezes, os juruás se referem aos indígenas como invasores, mas não estamos invadindo, estamos voltando ao que é nosso, ao espaço onde estavam os guarani mais antigos”, afirmou. Ao longo de sua fala, André comentou que faz um grande esforço para se expressar na língua portuguesa e que valoriza os convites para participar de eventos porque a situação dos guarani precisa ser melhor explicada para a população em geral. “Retomada não é só voltar para o nosso território. É retomar nossa cultura, nossa vivência, porque nunca mais fomos livres para viver dentro de nossas aldeias”, declarou. André também destacou que a população guarani sempre desempenhou um papel importante para o meio ambiente devido a sua forma de se relacionar com a natureza. “Somos povos que foram criados para cuidar da natureza. E não é apenas cuidar, nós vivemos com a natureza, somos livres com a natureza, conversamos com a natureza. O que fazemos é importante para todos, não só para o indígenas”, declarou. 

A história dos povos guarani também foi abordada pelo líder Timóteo Karay Mirim, da aldeia de Ponta do Arado, em Porto Alegre. “Somos filhos da terra e do mato. Com a chegada dos portugueses, primeiramente diminuiu nossa população, e depois acabou a nossa riqueza. E qual era a nossa riqueza? A fruta nativa, o palmito, o mel, os peixes, tudo o que Deus criou para nos manter. Em muitas aldeias, nem água tínhamos mais”, lamentou. Timóteo ressaltou que, mesmo passando por muito sofrimento, a população guarani sobreviveu graças à resistência dos seus antepassados “Tentaram nos matar, mas nossos antepassados não entregaram nosso território. Nossa língua, nossa reza, nossa cultura não foram entregues”, destacou. O líder também comentou que os guarani querem apenas um espaço para plantar o que precisam e manter seus filhos. “Não vendemos nada, tudo é para consumo. Nosso povo nunca vendeu madeira, ouro, água, nada. Somos pobres, mas nunca roubamos. Nunca vamos enriquecer, mas nossa sabedoria nunca vai se extraviar”, afirmou. 

O líder Leonardo, da aldeia de Terra de Areia, relembrou um episódio de março de 2018, quando os indígenas que faziam a retomada no local foram ameaçados por pessoas que portavam armas de fogo. “Lembro que pensei em sair daquela área, mas as crianças vieram falar comigo e disseram que eu não podia sair, porque a aldeia precisava de mim. Nunca pensei que seria uma liderança, mas com a força das crianças eu segui este caminho. Eu sei que hoje as pessoas precisam de mim, como eu preciso dos mais velhos, e também do apoio das pessoas não-indígenas”, observou. Leonardo também comentou que há diferenças entre as necessidades de cada aldeia, mas destacou que a luta pelo espaço e pelo fortalecimento da comunidade é a mesma. “Com a ajuda de outras lideranças, vou conseguir levar essa luta em frente e ter uma história para repassar aos meus filhos futuramente”, afirmou. 

O cotidiano na aldeia de Rio Grande foi relatado pela líder Talcira Gomes, que vive junto com 14 famílias no local. Em seu depoimento, ela falou sobre as dificuldades que enfrentou, e afirmou que sua vida melhorou há cerca de dois anos, após as retomadas. “Eu tenho vergonha de dizer ‘retomada’, porque não sei se entendem, na verdade a gente só está usando o que já era nosso. Eu chamo de conquista. A gente está plantando, criando galinhas, comendo o que é nosso. Minha cultura não é só a de ir na cidade. Eu tenho medo dos brancos, a gente tem que se manter na aldeia, é lá que a gente se protege. Temos uma história de muito sofrimento. Agora melhorou um pouco, porque a gente não é mais massacrado. Mas não sei se a gente não vai ser massacrado de novo, esse é o meu medo”. A líder Talcira afirmou que, mesmo com todos os problemas que enfrentam, os guarani procuram manter uma vida feliz dentro das aldeias, e ressaltou que a luta indígena não está relacionada com a violência. “Nosso enfrentamento é com o coração, com a força da nossa espiritualidade”, declarou. “A gente guarani sonha. Sonha um lugar onde vai morar, onde vai ser a aldeia. Depois acorda cedo e vai tomar chimarrão na casa dos mais velhos, contar nosso sonhos, nossos pensamentos, nossos sentimentos, e eles nos dizem o que temos que fazer. Isso é bonito”, concluiu.

As retomadas guarani no Rio Grande do Sul

Após as falas dos líderes indígenas, o antropólogo José Otávio Catafesto de Souza, da UFRGS, falou sobre as retomadas dos povos guarani no Rio Grande do Sul. O antropólogo comentou que está colaborando para elaboração de um laudo sobre a situação da aldeia de Ponta do Arado, em Porto Alegre. “Por que é preciso que um antropólogo, alguém com um título acadêmico, diga que os guarani estão certos? Por que as palavras da Talcira, do Timóteo, do André e do Leonardo não bastam para que a Justiça reconheça a legitimidade de tudo que está sendo colocado? Tenho vergonha de fazer parte de uma sociedade em que eu preciso traduzir no papel coisas sobre as quais eles têm muito mais competência do que eu para falar”, criticou. Catafesto também ressaltou que em poucos lugares do mundo tem-se a oportunidade de presenciar algo semelhante ao que os guarani estão fazendo no Rio Grande do Sul, pois a população indígena consegue provocar transformações significativas sem o uso da violência. 

Ao longo de sua exposição, o antropólogo explicou que, geralmente, utilizam-se conceitos inadequados para a compreensão da realidade dos guarani. “Usamos o conceito de terra no sentido de algo que pode ser propriedade de alguém, algo que passa a ser exclusivo de uma pessoa. Essa é uma visão que nunca existiu na sociedade guarani. Os guarani não têm a ideia de indivíduo, as coisas são compartilhadas comunitariamente ou familiarmente, tudo é coletivo”, explicou. O antropólogo também comentou que os guarani começaram a retornar para o Rio Grande do Sul já na primeira década do século XX. Conforme o pesquisador, apesar de terem sidos forçados a abandonar seu território no final do século XIX, a saída dos guarani não foi completa, e muitos índios permaneceram aqui, mas, para sobreviver, precisaram absorver a cultura branca e mascarar sua identidade, processo que chama de “invisibilidade étnica”. “O retorno dos guarani é resultado dessas relações que se estabeleceram com os que ficaram aqui anônimos”, explicou. O antropólogo também comentou que grande parte dos brasileiros possui ascendência indígena, mas que essa relação historicamente foi escondida por causa do preconceito, e essa memória acabou se perdendo. “Aqui no Rio Grande do Sul, o conflito entre os guarani e os brancos é ainda mais complicado porque quase todos os brancos têm uma ascendência indígena que foi apagada na família. Quando a pessoa vai contra o índio, na verdade ela vai contra uma parte de si mesma”, concluiu. 

A roda de conversas contou com a mediação da jornalista Ana Barros e da servidora Milene Tafra da Fontoura, integrante da Comissão de Cultura do TRT-RS. A atividade foi um desdobramento da exposição "Retomadas Yvyrupá", organizada por Ana Barros, que está em exibição no Espaço Cultural Lenir Heinen, do Foro Trabalhista da Capital (Av. Praia de Belas, 1.432, Prédio 2, Galeria) até esta sexta-feira (30/8). 

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Fonte: texto e fotos de Guilherme Villa Verde (Secom/TRT-RS)
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