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Publicada em: 13/04/2026 10:45. Atualizada em: 13/04/2026 10:45.

Cumpre “obtemperar”: Por que não dizer apenas “argumentar” ou “ponderar”?

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Arte da editoria Na Ponta da Língua

Hoje conversaremos sobre um verbo que parece ter saído de uma obra literária do século XIX, mas que ainda teima em aparecer em muitos textos jurídicos por aí: o verbo “obtemperar”.

Você já se pegou lendo ou até escrevendo textos como "A parte obtempera que...", “Cumpre obtemperar”, “Obtemperou que a referida demanda…” e afins? 

Já parou para pensar se a pessoa que espera o resultado daquele processo sabe o que isso significa? Provavelmente não. Aliás, muitos de nós, que temos conhecimento de causa, também não entenderíamos. Esses dias, inclusive, uma colega contou que precisou buscar no dicionário o significado dessa palavra… Isso porque, no dia a dia, ninguém "obtempera" nada: nós argumentamos, dizemos ou ponderamos.

Vindo do latim obtemperare, o verbo originalmente significa "obedecer" ou "submeter-se". Contudo, no contexto jurídico, ele acabou ganhando o sentido de "ponderar", "observar" ou "apresentar argumentos".

Arte com os dizeres Linguagem Simples - Entender é nosso direitoPor que evitar?

O problema do "obtemperar" é que ele é uma expressão de baixíssima frequência na comunicação do dia a dia. Quando a pessoa que está lendo esbarra em uma palavra tão incomum quanto essa (e tantas outras similares), ela perde o foco na tese jurídica para tentar processar o vocabulário. Em vez de tornar o texto sofisticado, o uso de palavras assim cria uma "neblina" que tira o foco e esconde a mensagem principal. 

Além disso, por ter múltiplos significados (que podem variar entre obedecer e argumentar), ele pode até gerar ambiguidade desnecessária. Como ela não é clara por natureza, para entendê-la, normalmente precisamos de contexto, e isso prolonga o processamento.

Substituir para esclarecer

Seguindo as diretrizes do Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, do CNJ, e da Política Nacional de Linguagem Simples (Lei nº 15.263/2025), nosso compromisso é tentar remover o máximo de barreiras entre o que o texto diz e o que a sociedade entende. 

Verbos como argumentar, ponderar, observar, alegar ou dizer são substitutos perfeitos para “obtemperar”. Eles são diretos, claros e cumprem a mesma função sem exigir que as pessoas precisem de um dicionário jurídico ao lado. Além disso, elas não diminuem em nada a correção e a força do texto.

Veja como a substituição ou mesmo a reformulação das orações melhora a fluidez do texto:

Em vez de:

Pense em escrever assim:

Cabe obtemperar que a decisão recorrida não observou a prova documental.

É importante observar que a decisão recorrida não considerou a prova documental.

A defesa vem obtemperar que o prazo prescricional já se esgotou.

A defesa argumenta que o prazo já prescreveu.

Diante do exposto, cumpre obtemperar a necessidade de perícia técnica.

Diante disso, registra-se a necessidade de perícia técnica.

Obtemperou que a contratação da reclamante, mesmo que aparentemente saudável, implicaria risco concreto à sua própria integridade física e poderia comprometer o ambiente assistencial

Argumentou que contratar a reclamante(a), mesmo que aparentemente saudável, traria risco real à sua integridade física e poderia comprometer o ambiente assistencial.


Resumindo:


  • O verbo “obtemperar” costuma ser usado, no meio jurídico, como sinônimo de argumentar, ponderar ou observar.

  • É, contudo, um termo muito formal que dificulta a leitura e a compreensão imediata do texto. O leitor precisa de contexto.

  • No lugar, prefira usar vermos como argumentar, alegar, observar ou ponderar. O texto fica mais limpo, moderno e acessível.

E você: já viu muito “obtemperar” por aí?

Por hoje era isso.

Até a próxima!

Lara Martins

Servidora do TRT-RS

Assessora de Promoção do Acesso à Justiça

Licenciada em Letras, com pós-graduação em Direito Administrativo

 
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Fonte: Assessoria de Promoção do Trabalho Decente e dos Direitos Humanos (Asprodec)
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