Cumpre “obtemperar”: Por que não dizer apenas “argumentar” ou “ponderar”?
Hoje conversaremos sobre um verbo que parece ter saído de uma obra literária do século XIX, mas que ainda teima em aparecer em muitos textos jurídicos por aí: o verbo “obtemperar”.
Você já se pegou lendo ou até escrevendo textos como "A parte obtempera que...", “Cumpre obtemperar”, “Obtemperou que a referida demanda…” e afins?
Já parou para pensar se a pessoa que espera o resultado daquele processo sabe o que isso significa? Provavelmente não. Aliás, muitos de nós, que temos conhecimento de causa, também não entenderíamos. Esses dias, inclusive, uma colega contou que precisou buscar no dicionário o significado dessa palavra… Isso porque, no dia a dia, ninguém "obtempera" nada: nós argumentamos, dizemos ou ponderamos.
Vindo do latim obtemperare, o verbo originalmente significa "obedecer" ou "submeter-se". Contudo, no contexto jurídico, ele acabou ganhando o sentido de "ponderar", "observar" ou "apresentar argumentos".
Por que evitar?
O problema do "obtemperar" é que ele é uma expressão de baixíssima frequência na comunicação do dia a dia. Quando a pessoa que está lendo esbarra em uma palavra tão incomum quanto essa (e tantas outras similares), ela perde o foco na tese jurídica para tentar processar o vocabulário. Em vez de tornar o texto sofisticado, o uso de palavras assim cria uma "neblina" que tira o foco e esconde a mensagem principal.
Além disso, por ter múltiplos significados (que podem variar entre obedecer e argumentar), ele pode até gerar ambiguidade desnecessária. Como ela não é clara por natureza, para entendê-la, normalmente precisamos de contexto, e isso prolonga o processamento.
Substituir para esclarecer
Seguindo as diretrizes do Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, do CNJ, e da Política Nacional de Linguagem Simples (Lei nº 15.263/2025), nosso compromisso é tentar remover o máximo de barreiras entre o que o texto diz e o que a sociedade entende.
Verbos como argumentar, ponderar, observar, alegar ou dizer são substitutos perfeitos para “obtemperar”. Eles são diretos, claros e cumprem a mesma função sem exigir que as pessoas precisem de um dicionário jurídico ao lado. Além disso, elas não diminuem em nada a correção e a força do texto.
Veja como a substituição ou mesmo a reformulação das orações melhora a fluidez do texto:
Resumindo:
O verbo “obtemperar” costuma ser usado, no meio jurídico, como sinônimo de argumentar, ponderar ou observar.
É, contudo, um termo muito formal que dificulta a leitura e a compreensão imediata do texto. O leitor precisa de contexto.
No lugar, prefira usar vermos como argumentar, alegar, observar ou ponderar. O texto fica mais limpo, moderno e acessível.
E você: já viu muito “obtemperar” por aí?
Por hoje era isso.
Até a próxima!
Lara Martins
Servidora do TRT-RS
Assessora de Promoção do Acesso à Justiça
Licenciada em Letras, com pós-graduação em Direito Administrativo


