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Publicada em: 30/03/2026 10:17. Atualizada em: 30/03/2026 11:23.

Roda de conversas aborda a luta feminista e homenageia a juíza Andréa Nocchi

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Seis mulheres sentadas em cadeiras na nave do Plenário, com a arte do evento no telão ao fundoA pluralidade da luta feminista foi o tema de uma roda de conversa na manhã de sexta-feira (27/3), no Plenário do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS). A ativade integrou programação especial da Justiça do Trabalho gaúcha no Mês da Mulher. 

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O evento também prestou uma homenagem à juíza Andréa Saint Pastous Nocchi, falecida no dia 7 de março. A magistrada foi uma das idealizadoras e responsáveis pela construção e implementação da Política de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade no TRT-RS. 

A roda de conversas foi promovida pela Escola Judicial, com mediação da desembargadora do TRT-RS Beatriz Renck. Durante a atividade, magistradas e acadêmicas compartilharam com o público informações, análises e experiências sobre os obstáculos que as mulheres ainda enfrentam. 

Alê é loira, branca, usa óculos de aro grande e vesta blazer verde.
Alê Teixeira 
A mulher não pode ser reduzida a seu sistema reprodutor. O corpo não limita nem determina. 

A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alê Teixeira Primo abordou o transfeminismo e destacou que não existe uma única forma de ser mulher. Ela explicou as diferentes fases do feminismo até a chamada “terceira onda”, que passou a questionar a ideia de uma mulher universal e a considerar as desigualdades ligadas à raça, classe social, orientação sexual e identidade de gênero. Segundo a pesquisadora, falar em “mulheres”, no plural, é reconhecer essa diversidade e ampliar a busca por mais inclusão.

Alê também explicou que o transfeminismo entende o gênero como uma construção social e política. Ao compartilhar sua experiência como mulher trans, ressaltou que a identidade de gênero vai além do corpo. Para ela, o conceito de “mulheridades” ajuda a mostrar essa complexidade. “Falar em mulheridades é reconhecer a complexidade e a riqueza das múltiplas formas de ser mulher, garantindo que o feminismo seja um movimento verdadeiramente plural e inclusivo”, afirmou. 

Bábara é negra, tem cabelos crespos e usa óculos de aro grande. lusa blusa estampada e fala no púlpiito
Bárbara Ferrito

Quando pensamos em tudo o que as mulheres precisam fazer só para estar no ambiente profissional, entendemos o quanto é custoso ser mulher.

A juíza do TRT-RJ Bárbara Ferrito apresentou sua pesquisa sobre a chamada “pobreza do tempo”, que afeta as mulheres. Dados do IBGE mostram que elas dedicam, em média, 11 horas a mais por semana a tarefas domésticas e de cuidado com os outros do que os homens. Esse desequilíbrio reduz o tempo disponível para lazer, estudo e trabalho remunerado, com impacto direto na carreira. 

A magistrada chamou atenção para a invisibilidade do trabalho doméstico, que, apesar de exigir tempo e energia, ainda é tratado como um gesto de “amor”. “Será que as relações de afeto dependem do trabalho gratuito de mulheres exaustas?”.  Também explicou o conceito de “trabalho ontológico”, realizado por pessoas de grupos vulneráveis para se adequar a padrões sociais e profissionais. Isso ocorre, por exemplo, quando as mulheres sentem a necessidade de alisar o cabelo ou frequentar a manicure para transmitir seriedade no ambiente de trabalho. Segundo ela, quando essa adequação deixa de ser escolha e passa a ser exigência, representa gasto de tempo, de dinheiro e de energia. 

Vânia é negra e tem cabelos cacheados em tranças. Usa blusa rosa e fala ao microfone com o telão da atividade ao fundo
Vânia Soutinho

Onde eu ia, ficava constrangida. Sentia olhares dizendo que meu lugar não era ali.

A servidora Vânia Terezinha Oliveira Soutinho relatou os desafios que enfrentou como mulher negra e pessoa com deficiência no mundo do trabalho. Com base em dados do IBGE, ela destacou que mulheres negras representam 28% da população economicamente ativa, mas ainda têm menos acesso ao emprego formal e recebem os menores salários. 

Também afirmou que a presença de pessoas negras na Justiça do Trabalho sempre foi reduzida, com avanços a partir de 2014, após a adoção de cotas raciais. “Mas ainda somos poucos, por isso precisamos nos organizar em coletivos e ampliar cada vez mais esses espaços”. Vânia ainda relembrou os desafios do início da carreira, quando era a única pessoa com deficiência no ambiente de trabalho e se sentia constrangida, como se não pertencesse àquele espaço. Além disso, destacou que, embora as mulheres sejam maioria entre a população com deficiência, ainda são os homens que predominam no mercado de trabalho.

Maria é branca e grisalha, veste casaco branco. fala de pé no canto direito. ao fundo aparece o público.
Maria Aglaé Tedesco

Envelhecer exige de nós um comportamento antidiscriminatório e feminista.

A desembargadora do TJ-RJ Maria Aglaé Tedesco abordou a realidade das mulheres com mais de 60 anos em sua fala intitulada “Corpo envelhecido, voz inabalável”. Ela destacou que envelhecer exige das mulheres uma postura antidiscriminatória e feminista, capaz de enfrentar preconceitos e desafios sociais. Segundo a magistrada, essa fase da vida traz vulnerabilidades específicas que precisam ser reconhecidas e combatidas pela sociedade.

Maria Aglaé chamou atenção para a violência que muitas idosas sofrem, incluindo abusos físicos, psicológicos, emocionais e sexuais, às vezes até dentro do próprio lar. Ela lembrou que muitas mulheres são abandonadas pela família ao se tornarem dependentes de cuidadores. “Ser velha no mundo é não ser mais útil, é algo visto pela sociedade como algo negativo”. A desembargadora reforçou a importância de conscientizar a população para identificar sinais de violência e buscar ajuda sempre que houver suspeita de maus-tratos.

Patrícia é amarela. tem cabelo preto e liso. Usa óculos.
Patrícia Maeda
A ausência de mulheres no topo não é por falta de ambição, é por excesso de obstáculos.

A juíza do TRT-Campinas Patrícia Maeda apresentou pesquisa da Enamat (Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho) sobre os desafios das mulheres na magistratura trabalhista. Segundo os dados, 92% das entrevistadas sentem que precisam se esforçar mais que os homens para provar sua competência, e 75% das magistradas negras já tiveram sua autoridade questionada por causa da raça. 

A pesquisa também aponta o acúmulo de trabalho com cuidados familiares: 61,3% das entrevistadas que têm filhos cuidam deles sozinhas ou assumem a maior parte da responsabilidade.  Além disso, 82% das respondentes têm problemas de saúde mental, como estresse, ansiedade, insônia, esgotamento e burnout. Desse total, 3% não apresentava o problema antes de iniciar a carreira. 

“A soma da sobrecarga do trabalho, do adoecimento silencioso e do ambiente hostil leva a essas barreiras invisíveis, porém concretas. Elas limitam o acesso a cargos diretivos e posições de prestígio”, concluiu. 

Homenagem

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Beatriz Renck e Ana Naiara Malavolta

A abertura do evento homenageou a juíza Andréa Nocchi, lembrada por sua sensibilidade e generosidade. A desembargadora Beatriz Renck, que presidia o TRT-RS quando Andréa foi juíza auxiliar da Presidência, destacou que ela defendia um espaço institucional que fosse além da prestação jurisdicional, promovendo a cultura de direitos humanos e políticas voltadas ao enfrentamento das violências e opressões na sociedade.

Também ressaltou sua atuação no combate ao trabalho infantil, na defesa da sustentabilidade, no planejamento da parceria com o projeto Pescar, e na defesa pioneira de uma política de equidade de gênero no Judiciário Trabalhista. “Se hoje estamos aqui debatendo vivências, pluralidade e lutas feministas, é porque ela entendeu que era preciso tratar desse tema e envolver toda a instituição. Andréa tocou e encantou servidores, servidoras, magistrados e magistradas desta casa”, afirmou. 

A servidora Ana Naiara Malavolta Saupe relembrou as primeiras iniciativas do TRT-RS em defesa da equidade de gênero, coordenadas pela juíza Andréa Nocchi. “Ela não deixava espaço para o medo, estava sempre junto, orientando, incentivando, articulando, delegando e cobrando resultados. Sempre foi incansável”. Naiara ressaltou que a dedicação da magistrada ao tema deixou como legado a Política de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade do TRT-RS. “Andréa marcou a minha vida, marcou a vida de muitas pessoas aqui”, declarou. 

A solenidade também exibiu uma entrevista em vídeo com a juíza André Nocchi, realizada pela Secretaria de Comunicação Social em 2022.

telão ao fundo exibe vídeo da entrevista com Andréa Nocchi. Público aparece de costas assistindo ao vídeo. Na nave ao centro, Beatriz e Ana Naiara estão sentadas em sofásdiversas pessoas na plateia estão em pé aplaudindo












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Fonte: texto de Guilherme Villa Verde e fotos de Guilherme Lund (Secom/TRT-4)
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