Roda de conversas aborda a luta feminista e homenageia a juíza Andréa Nocchi
A pluralidade da luta feminista foi o tema de uma roda de conversa na manhã de sexta-feira (27/3), no Plenário do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS). A ativade integrou programação especial da Justiça do Trabalho gaúcha no Mês da Mulher.
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O evento também prestou uma homenagem à juíza Andréa Saint Pastous Nocchi, falecida no dia 7 de março. A magistrada foi uma das idealizadoras e responsáveis pela construção e implementação da Política de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade no TRT-RS.
A roda de conversas foi promovida pela Escola Judicial, com mediação da desembargadora do TRT-RS Beatriz Renck. Durante a atividade, magistradas e acadêmicas compartilharam com o público informações, análises e experiências sobre os obstáculos que as mulheres ainda enfrentam.
A mulher não pode ser reduzida a seu sistema reprodutor. O corpo não limita nem determina.
A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alê Teixeira Primo abordou o transfeminismo e destacou que não existe uma única forma de ser mulher. Ela explicou as diferentes fases do feminismo até a chamada “terceira onda”, que passou a questionar a ideia de uma mulher universal e a considerar as desigualdades ligadas à raça, classe social, orientação sexual e identidade de gênero. Segundo a pesquisadora, falar em “mulheres”, no plural, é reconhecer essa diversidade e ampliar a busca por mais inclusão.
Alê também explicou que o transfeminismo entende o gênero como uma construção social e política. Ao compartilhar sua experiência como mulher trans, ressaltou que a identidade de gênero vai além do corpo. Para ela, o conceito de “mulheridades” ajuda a mostrar essa complexidade. “Falar em mulheridades é reconhecer a complexidade e a riqueza das múltiplas formas de ser mulher, garantindo que o feminismo seja um movimento verdadeiramente plural e inclusivo”, afirmou.
Quando pensamos em tudo o que as mulheres precisam fazer só para estar no ambiente profissional, entendemos o quanto é custoso ser mulher.
A juíza do TRT-RJ Bárbara Ferrito apresentou sua pesquisa sobre a chamada “pobreza do tempo”, que afeta as mulheres. Dados do IBGE mostram que elas dedicam, em média, 11 horas a mais por semana a tarefas domésticas e de cuidado com os outros do que os homens. Esse desequilíbrio reduz o tempo disponível para lazer, estudo e trabalho remunerado, com impacto direto na carreira.
A magistrada chamou atenção para a invisibilidade do trabalho doméstico, que, apesar de exigir tempo e energia, ainda é tratado como um gesto de “amor”. “Será que as relações de afeto dependem do trabalho gratuito de mulheres exaustas?”. Também explicou o conceito de “trabalho ontológico”, realizado por pessoas de grupos vulneráveis para se adequar a padrões sociais e profissionais. Isso ocorre, por exemplo, quando as mulheres sentem a necessidade de alisar o cabelo ou frequentar a manicure para transmitir seriedade no ambiente de trabalho. Segundo ela, quando essa adequação deixa de ser escolha e passa a ser exigência, representa gasto de tempo, de dinheiro e de energia.
Onde eu ia, ficava constrangida. Sentia olhares dizendo que meu lugar não era ali.
A servidora Vânia Terezinha Oliveira Soutinho relatou os desafios que enfrentou como mulher negra e pessoa com deficiência no mundo do trabalho. Com base em dados do IBGE, ela destacou que mulheres negras representam 28% da população economicamente ativa, mas ainda têm menos acesso ao emprego formal e recebem os menores salários.
Também afirmou que a presença de pessoas negras na Justiça do Trabalho sempre foi reduzida, com avanços a partir de 2014, após a adoção de cotas raciais. “Mas ainda somos poucos, por isso precisamos nos organizar em coletivos e ampliar cada vez mais esses espaços”. Vânia ainda relembrou os desafios do início da carreira, quando era a única pessoa com deficiência no ambiente de trabalho e se sentia constrangida, como se não pertencesse àquele espaço. Além disso, destacou que, embora as mulheres sejam maioria entre a população com deficiência, ainda são os homens que predominam no mercado de trabalho.
Envelhecer exige de nós um comportamento antidiscriminatório e feminista.
A desembargadora do TJ-RJ Maria Aglaé Tedesco abordou a realidade das mulheres com mais de 60 anos em sua fala intitulada “Corpo envelhecido, voz inabalável”. Ela destacou que envelhecer exige das mulheres uma postura antidiscriminatória e feminista, capaz de enfrentar preconceitos e desafios sociais. Segundo a magistrada, essa fase da vida traz vulnerabilidades específicas que precisam ser reconhecidas e combatidas pela sociedade.
Maria Aglaé chamou atenção para a violência que muitas idosas sofrem, incluindo abusos físicos, psicológicos, emocionais e sexuais, às vezes até dentro do próprio lar. Ela lembrou que muitas mulheres são abandonadas pela família ao se tornarem dependentes de cuidadores. “Ser velha no mundo é não ser mais útil, é algo visto pela sociedade como algo negativo”. A desembargadora reforçou a importância de conscientizar a população para identificar sinais de violência e buscar ajuda sempre que houver suspeita de maus-tratos.
A ausência de mulheres no topo não é por falta de ambição, é por excesso de obstáculos.
A juíza do TRT-Campinas Patrícia Maeda apresentou pesquisa da Enamat (Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho) sobre os desafios das mulheres na magistratura trabalhista. Segundo os dados, 92% das entrevistadas sentem que precisam se esforçar mais que os homens para provar sua competência, e 75% das magistradas negras já tiveram sua autoridade questionada por causa da raça.
A pesquisa também aponta o acúmulo de trabalho com cuidados familiares: 61,3% das entrevistadas que têm filhos cuidam deles sozinhas ou assumem a maior parte da responsabilidade. Além disso, 82% das respondentes têm problemas de saúde mental, como estresse, ansiedade, insônia, esgotamento e burnout. Desse total, 3% não apresentava o problema antes de iniciar a carreira.
“A soma da sobrecarga do trabalho, do adoecimento silencioso e do ambiente hostil leva a essas barreiras invisíveis, porém concretas. Elas limitam o acesso a cargos diretivos e posições de prestígio”, concluiu.
Homenagem
A abertura do evento homenageou a juíza Andréa Nocchi, lembrada por sua sensibilidade e generosidade. A desembargadora Beatriz Renck, que presidia o TRT-RS quando Andréa foi juíza auxiliar da Presidência, destacou que ela defendia um espaço institucional que fosse além da prestação jurisdicional, promovendo a cultura de direitos humanos e políticas voltadas ao enfrentamento das violências e opressões na sociedade.
Também ressaltou sua atuação no combate ao trabalho infantil, na defesa da sustentabilidade, no planejamento da parceria com o projeto Pescar, e na defesa pioneira de uma política de equidade de gênero no Judiciário Trabalhista. “Se hoje estamos aqui debatendo vivências, pluralidade e lutas feministas, é porque ela entendeu que era preciso tratar desse tema e envolver toda a instituição. Andréa tocou e encantou servidores, servidoras, magistrados e magistradas desta casa”, afirmou.
A servidora Ana Naiara Malavolta Saupe relembrou as primeiras iniciativas do TRT-RS em defesa da equidade de gênero, coordenadas pela juíza Andréa Nocchi. “Ela não deixava espaço para o medo, estava sempre junto, orientando, incentivando, articulando, delegando e cobrando resultados. Sempre foi incansável”. Naiara ressaltou que a dedicação da magistrada ao tema deixou como legado a Política de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade do TRT-RS. “Andréa marcou a minha vida, marcou a vida de muitas pessoas aqui”, declarou.
A solenidade também exibiu uma entrevista em vídeo com a juíza André Nocchi, realizada pela Secretaria de Comunicação Social em 2022.




