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30/11/2021 17:25

Gabriela Oliveira: “O silêncio serve à manutenção dos privilégios, retardando as mudanças que a sociedade precisa”

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2021.11.25 - Antirracista 800p.pngA professora Gabriela Oliveira, autora do livro “Uma atitude por dia – Por um mundo com menos racismo”, foi uma das palestrantes do 3º Fórum Aberto de Educação Antirracista do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS). Sua fala foi sobre linguagem antirracista e ocorreu na quinta-feira (25/11), telepresencialmente, com participação de dezenas de pessoas. A servidora Roberta Liana Vieira mediou a atividade.

Gabriela explicou que um dos usos possíveis da linguagem no combate ao racismo é evitar expressões que reforçam a associação da negritude com valores negativos. Termos surgidos no contexto da escravidão também precisam ser abolidos, tanto no ambiente informal como formal. Segundo a palestrante, são alguns exemplos dessas expressões:

  • “a dar com o pau” - surgiu quando utilizam um pedaço de pau para alimentar à força escravos que paravam de comer tentando morrer por inanição;
  • “meia tigela” - surgiu porque escravos que não atingiam suas “metas” na mineração de ouro recebiam como punição apenas metade da tigela de comida;
  • “beleza exótica” - quando associado a pessoas negras, pressupõe uma singularidade (exótica) que contraria a realidade de serem a maior parte da população brasileira;
  • “morena” - quando dito para evitar usar “negra” ou “preta”;
  • “denegrir” (menosprezar, difamar) - associação da negritude com negatividade;
  • “ovelha, magia, lista negra” - idem;
  • “serviço de preto” - idem;
  • “ovelha negra” - idem;
  • “dia de branco” - idem, por exclusão;
  • “da cor do pecado” - idem, além da hipersensualização.

Ainda que maioria da população brasileira (56%, segundo o IBGE), pessoas pretas e pardas são diariamente minorizadas, informou a escritora. Isso porque a linguagem vai além do uso de palavras: o apagamento da história do povo de origem africana no Brasil é uma outra perspectiva de um racismo verbal. Da mesma forma, os vieses, e mesmo mentiras, até hoje propagados acabam por reforçar esse tipo de preconceito. 

A professora reforçou a importância de todos conhecermos a história, recomendando autores como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Milton Santos, Silvio Almeida e Djamila Ribeiro. Como sugestão de livro, mencionou o livro “Pele Negra, Máscaras Brancas”,  do psiquiatra Frantz Fanon, cujo prefácio é de Grada Kilomba, intelectual cuja obra também recomenda.

Como a linguagem é uma coisa viva, ela se altera o tempo todo, registrou a palestrante. Nesse sentido, a palavra “preto” e, mais ainda, a palavra “negro” já carregaram sentidos pejorativos no Brasil. Mas foram ressignificadas, servindo hoje à identidade racial. Mas Gabriela alerta: o contexto do uso é fundamental, pois dependendo de quem os utiliza, e como, esses termos podem sim ter sentido ofensivo. Ela defendeu que o caráter dinâmico da linguagem também ampara a necessidade de alteração do verso racista na letra do Hino Rio-Grandense: “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.

A escritora ilustrou que uma forma de manifestação do racismo na linguagem é o uso de expressões como “negão” ou “pretinha” para dirigir-se ou referir-se a pessoas com quem não se tem intimidade e, portanto, não deram essa autorização. A falta de paralelo com a cor branca nesses usos evidencia o reprovável comportamento: “Que branca bonita!” é uma frase que ninguém emite, por exemplo. 

Outra intersecção entre linguagem e racismo está no conceito de “lugar de fala”, elaborado pela filósofa Djamila Ribeiro, pontuou Gabriela. Uma das perspectivas dessa ideia compreende haver maior legitimidade nas vozes negras para abordar o racismo, pela experiência vivida “na pele”. E a realidade de espaços públicos como imprensa, política e mercado de trabalho evidencia uma corriqueira negação dessa legitimidade e proporcionalidade, estando as pautas da negritude (mal) apresentadas e representadas majoritariamente por pessoas brancas. 

Por outro lado, “nem todas as pessoas pretas são obrigadas a falar sobre raça”, disse a professora. Também está abarcada na equidade reivindicada pelo lugar de fala a ocupação dos espaços por negros para abordarem qualquer assunto para o qual suas áreas de estudo e trabalho lhes legitimem: professores, cientistas, empresários etc. Ainda, insere-se nesse conceito a importância de pessoas brancas aprenderem a ouvir atentamente quando alguém preto fala de racismo, assunto sobre o qual deveriam estudar, já que a situação de privilégio provavelmente lhes permitiu crescer em plena ignorância sobre o tema.

A sempre crescente distância entre a "norma culta” do Português e a língua realmente falada nas periferias urbanas é mais um jeito pelo qual o racismo se mantém, ponderou Gabriela. Isso porque a “incorreção” da fala é pretexto para a exclusão de uma população predominantemente negra de esferas públicas como universidades, veículos de imprensa etc. A não existência de mulheres negras na Academia Brasileira de Letras, onde há apenas três negros, bem simboliza esse ponto. Gabriela citou a escritora Carolina Maria de Jesus como exemplo de uma concretização dessa literatura brasileira negra e popular, “usando uma linguagem que para ela era oficial”.

Há um aspecto involuntário no racismo que se manifesta pelos chamados “vieses inconscientes”, ensinou Gabriela. Esses são preconceitos baseados em estereótipos de raça, gênero, classe, orientação sexual, idade etc., tão internalizados que influenciam desde a escolha de uma palavra à contratação de um profissional, por exemplo. Um dos efeitos típicos dos vieses é a falta de diversidade, pois as pessoas em situação de poder tendem a dar espaço a seus “iguais”, e restringindo acesso aos “diferentes”.

Sobre a descrição de tons de pele para fins de acessibilidade (audiodescrição para cegos, por exemplo), a palestrante indicou a adequação dos adjetivos “claro” e “retinto”, após pergunta de uma participante. E aproveitou a oportunidade para introduzir o conceito de Colorismo, que justamente descreve a proporcionalidade direta entre a intensidade do racismo sofrido e a quantidade de melanina na pele da vítima. A mediadora Roberta colaborou neste tópico, relatando que, no modelo escravocrata, os pretos claros (frutos basicamente de estupros de mulheres negras por homens brancos) eram aqueles que trabalhavam na casa grande, restando aos retintos os ofícios de campo. E Roberta identificou a perpetuação desse círculo vicioso ao olhar para o TRT-RS e ver que a maior parte das negras retintas que lá trabalham estão no setor de limpeza - o de pior remuneração. E, à medida que se sobe na hierarquia de funções, as pessoas vão “embranquecendo”.

“A partir do momento em que tomamos consciência da forma como tais estruturas acontecem, temos o dever de ser agentes de mudança”, afirmou Gabriela. Além da evolução pessoal que isso implica, a obrigação moral passa também por repreender comportamentos racistas à nossa volta. Isso colabora no combate inclusive aos vieses inconscientes, passo inevitável na desconstrução do aspecto estrutural do racismo. “O silêncio serve à manutenção dos privilégios, retardando as mudanças que a sociedade precisa”, resumiu.

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Fonte: Texto de Inácio do Canto (Secom/TRT-RS)
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