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23/07/2021 12:17

ENTREVISTA: “Quem sou eu ou quem é você para aceitar ou não a existência de outra pessoa?”, questiona a servidora Bibiana Nodari Borges

Início do corpo da notícia.

bibiana - capa - site.jpgBibiana Nodari Borges tem 35 anos. Porto-alegrense, trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS) desde 2009. Cresceu na Capital gaúcha e morou por quase quatro anos em Taquara, onde iniciou no cargo de técnico administrativo na 1ª Vara do Trabalho. Depois, passou pela 13ª e 14ª Varas de Porto Alegre, Seção de Perícias e Coordenadoria de Agravos e Certidões. Atualmente, é secretária de audiências da 4ª Vara do Trabalho de Porto Alegre.

Dona de três gatos e dois cachorros, tinha uma vida agitada antes da pandemia. Ela classifica como “estranha” a adaptação ao trabalho em casa e às transformações na vida social que foram trazidas pela pandemia, pois prefere sair de casa e conviver com pessoas. “Vivia sempre na rua, cercada de gente e trocando ideias, em restaurantes, bares, teatros e shows, além de coletivos LGBTQIA+”, conta.

Há dois anos e meio, namora a redatora de marketing e dançarina burlesca Emily, que conheceu em um aplicativo de relacionamento. “Marcamos de nos encontrar em um bar e desde então não nos separamos mais”, diz Bibiana.

Na educação e no respeito entre todos, Bibiana vê a saída para esses tempos que classifica como de “insegurança, medo e obscurantismo”. Em 2020, ela passou a integrar o Comitê de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade do TRT-RS (Gestão 20/21).

Como é o trabalho no Comitê de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade?

Esse ano fizemos três eventos do mês da diversidade, todos com muito sucesso, e mais a cartilha sobre o tema. Também temos um coletivo que chamamos de Diversidade, que surgiu a partir do Comitê. Sempre conversamos sobre as pautas da comunidade LGBTQIA+ e essas discussões acabam indo para o Comitê.

Também promovemos cursos de formação para os servidores, assim como o Fórum Antirracista, Fórum de Acessibilidade, inclusão e não discriminação de pessoas com deficiência e questões que chegam pela ouvidoria, com relação a questões de gênero, aos servidores negros, LGBTQIA+ e servidores com deficiência.

Não atuamos ainda, especificamente, em questões ligadas a LGBTfobia, no período em que estou no comitê. Acredito que não esteja tudo completamente bem, porque a sociedade é machista e LGBTfóbica. Então talvez faltem denúncias mesmo.

Como você considera o ambiente do Tribunal em relação a essa demanda social?

A gente sabe que a sociedade tem essa fobia ao diferente, ao divergente, e é bom saber que dentro da instituição tem um lugar que vai te ouvir, te acolher e dar suporte. Também acredito que seja uma forma de prevenir que algo venha a acontecer.

O fato de você ter sido criada na Capital, em uma cidade maior, tornou mais fácil seu processo de afirmação junto à família e amigos?

Sim, ser de Porto Alegre facilitou. Eu notei mais a diferença quando saí de Porto Alegre e fui para o Interior, porque fui para lá com a minha namorada, à época. Eu senti mesmo a diferença, em ser notada na cidade - e não por questões positivas.

Eu nem uso o termo descobrir a orientação, para mim foi mais um ‘se dar conta’ mesmo. Meus amigos e amigas já estavam experimentando a sexualidade na adolescência e foi acontecendo comigo de uma forma natural.

Com relação à família, eu nunca cheguei e falei ‘oi, mãe, eu sou lésbica’ ou ‘oi, pai, eu sou lésbica’; foi acontecendo. Eles foram percebendo que aquela era minha namorada e não era só minha amiga. Então foi bem tranquilo, não só com minha família mais próxima, minha mãe, meu pai, meu irmão; mas também com meus tios e minhas tias, sempre tive muita sorte.

Você sofreu algum tipo de violência?

Não sofri nenhum tipo de violência, nada homofóbico na minha frente. Mas sempre havia aquelas coisas que a gente repara, aquele olhar torto, um cochicho...

Eu fui para lá (Taquara) muito novinha, tinha 23 anos, e minha mãe começou a falar: não assume nada, fica mais na tua.  Aí eu pensei: não vou assumir de cara. Eu fui muito bem recebida no trabalho. Mas é sempre assim, quando a gente foge do padrão, o medo de não ser bem recebido acontece. As pessoas não aceitam as diferenças, sejam elas quais forem.  E o próprio termo aceitar já me soa arrogante. Quem sou eu ou quem é você para aceitar a existência de outra pessoa?

Como tu avalia esse processo que vem acontecendo desde a retirada da comunidade LGBTQIA + das políticas e diretrizes de direitos humanos, em 2019?

Para impedir esse retrocesso é preciso que as pessoas se eduquem, principalmente. É preciso que elas saibam o que as pessoas diferentes de ti passam na vida e o que elas têm a falar.

Temos uma evolução jurídica para a população LGBT e ao mesmo tempo somos o país que mais mata mulheres travestis no mundo. A conta não faz sentido. Precisamos parar com a hipocrisia, se educar e consumir trabalhos de pessoas que são diferentes. O básico é o respeito.

Há pontos positivos que são resultados do que foi feito por muitas gerações lá de trás. Mas hoje em dia é um retrocesso. É um período obscuro, de incertezas e que a gente não sabe o que vai acontecer. Hoje eu sobrevivi, mas amanhã não sei como vai ser quando eu sair na rua.

bibiana 2.jpgJá houve situações de medo?

Sim, tive situações em que perdi sono e peso, fiquei com medo de sair na rua, porque começaram essas conversas de dar tiros e eu tenho várias tatuagens com a bandeira do arco íris e eu não escondo quem sou. O medo era constante, não sei se o medo diminuiu ou eu fui me acostumando com ele. Aqui em Porto Alegre, andando com a namorada de mãos dadas na rua, já aconteceu de passar gente de carro, xingar e diminuir a velocidade. Desviamos e fomos por outro caminho. Ao mesmo tempo, essas coisas fazem com que a gente tenha mais vontade de reagir.

Machismo e LGBTfobia têm alguma relação?

Machismo e LGBTfobia estão completamente ligados e, às vezes, se confundem. Em relação ao homem gay é porque não é homem. A mulher lésbica é homem e tem que ser tratada como tal. Com as mulheres trans é pior ainda, como se fosse uma sentença de morte.

Sob a perspectiva de visibilidade/aceitação há diferença entre ser gay e ser lésbica? 

Sempre teve mais representatividade masculina, sempre foi dito ‘orgulho gay’. Há um protagonismo do homem, talvez pelo próprio machismo. O episódio de Stonewall*, que ficou conhecido mundialmente, foi iniciado por mulheres transgênero negras, mas ficou conhecido como orgulho gay. Da mesma forma, homens e mulheres trans também não têm visibilidade.

Agora até está mudando e mais pessoas estão dando seu rosto e sua identidade, até como movimento político, mas de fato até aqui a representatividade do homem gay sempre foi muito maior.

* episódio em que a comunidade LGBTQIA+ nova-iorquina - na verdade, protagonizado por mulheres transgêneros pretas, sendo o nome mais conhecido o da travesti Marsha P. Johnson - resistiu às investidas policiais no Bar Stonewall, em 28 de junho de 1969. Desde então, o Dia Internacional do Orgulho Gay, como ficou popularmente conhecido, passou a ser celebrado no mundo todo.

E como levar o tema além da “bolha” e sensibilizar as pessoas que ainda têm preconceitos?

Na minha adolescência não tinha nada na TV e quando tinha era em horários mais tarde. Tudo era escondido e velado. Hoje já temos séries, comerciais, novelas, filmes.

Quem consome conteúdo produzido por pessoas LGBTQIA+ deveria passar adiante, para amigos e para a família. Compartilhar conteúdos, debater o tema, dar livros de presentes e contestar piadinhas “inocentes”, porém recheadas de preconceito, e que violentam os alvos dessas ditas piadas.

O ideal seria que esse tema fosse tratado com naturalidade, que ninguém precisasse “sair do armário”, mas estamos ainda muito longe disso.

Essa geração mais nova é um ponto de avanço muito grande, pois questões de sexualidade e gênero são mais falados e discutidos hoje em dia. Elas vão crescendo com isso sendo desconstruído na cabeça delas e elas são mais livres para viver a sua sexualidade e a sua identidade de gênero na forma como elas querem viver.

É o mais positivo da evolução da pauta LGBT. Falar abertamente sobre o assunto vai transformando a sociedade.

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Fonte: Sâmia de Christo Garcia (Secom/TRT4).
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