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25/11/2021 16:58

Fórum Antirracista: palestra inicial trouxe reflexões sobre o amor e os afetos nas relações sociais e de trabalho

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Aza Njeri

"Quando afirmamos que o amor é incondicional, isso na verdade cria diversos condicionantes, e aí, ao invés de nos libertar, o amor torna-se um sentimento que nos aprisiona". "Temos muito a ganhar se pensarmos em outros modelos [de sociedade], se abrirmos os nossos olhares para esse pluriverso de experiências. E o quilombo é uma dessas possibilidades". Frases como essas estiveram presentes de maneira abundante na atividade inicial do 3º Fórum Aberto de Educação Antirracista do TRT-RS, na tarde da última quarta-feira (24/10). Sob o título "Afetos nas Relações de Trabalho: uma reflexão sobre o racismo e as relações de afeto entre os seres humanos", Aza Njeri, professora de literaturas africana e afrobrasileira, e Renato Nogueira, professor, escritor e filósofo, apresentaram reflexões sobre a visão que temos enquanto sociedade sobre o amor e como as vivências de sentimentos e afetos por outras culturas podem contribuir para as relações de trabalho e as relações humanas de forma geral.

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Renato Nogueira

A atividade foi conduzida em formato de entrevista pela servidora Roberta Liana Vieira, representante dos servidores e servidoras negros e negras no Comitê de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade do TRT-RS, e pela juíza Gabriela Lacerda, coordenadora do mesmo Comitê. O Fórum é promovido em parceria pela Escola Judicial do TRT-RS (EJud4), pelo Comitê de Equidade e pelo Coletivo Negras/Negros do Tribunal. O evento prossegue até sexta-feira (26/11, com palestras on-line e disponibilização de materiais gravados no ambiente virtual da EJud4. Acesse aqui a programação completa.

Abaixo, confira trechos de duas reflexões de cada um dos palestrantes, apresentadas como respostas às perguntas das mediadoras. Mas não deixe de prestigiar o conteúdo completo da atividade, disponível na plataforma do Youtube, por meio deste link. Os trechos foram editados, mas são fiéis aos conteúdos apresentados.

- Por que precisamos pensar o amor e o afeto a partir de uma lógica não ocidental?

Renato Nogueira - O Ocidente nos oferece inúmeras respostas, mas não todas, porque nenhuma cultura tem todas as respostas. Pensar por outra ótica nos ajuda a ampliar as perspectivas, a compreendermos melhor a complexidade dos sentimentos, e entendermos como diferentes culturas fazem diferentes "designes". A nossa cultura considera a escassez como regulador, e então os mais aptos vão dominar. Outras culturas não consideram que somos anjos, mas tampouco demônios, e que existe espaço para todos. São arranjos diferentes. Os afetos podem ser também negativos e são compostos de emoções (agudas) e sentimentos (crônicos). Basicamente existem seis emoções: alegria, tristeza, raiva, nojo, surpresa e medo. Essas emoções são "programas fisiológicos", ou seja, quando vemos um cão feroz, temos medo, quando ganhamos um prêmio, sentimos alegria. Já os sentimentos têm um caráter mais histórico e social, apesar de também serem programados, mas carregam um histórico de como são chancelados socialmente. Então, precisamos ampliar a nossa caixa de ferramentas para compreender tudo isso.

- O cuidado parece ser um dos aspectos centrais do amor, mas os trabalhos dos cuidadores são desvalorizados na nossa sociedade. O que isso diz sobre nós enquanto coletividade? Como isso nos ajuda a compreender a reação diante da Covid-19 no Brasil?

Aza Njeri - Todas as pessoas negras num território como o nosso são descendentes de trabalhadoras domésticas, seja no nosso regime atual, seja no regime de escravização. Em muitos casos essas mulheres passam 30, 40 anos em uma casa. Não necessariamente mal tratadas, há um pluriverso de experiências profissionais de cuidado, nem tudo é mucamato ou escravidão doméstica. Mas um grupo grande dessas mulheres passou um longo período da vida assim e teve limitadas as suas vivências, elas nem conseguem se ver longe daquilo, e isso tem a ver com o fato do matriarcado ser um valor civilizatório nosso. Quando a mulher negra não consegue fazer isso com seus filhos, escoa no filho da patroa e na casa da patroa. Temos que olhar isso a partir da humanidade dessas pessoas, da sua ancestralidade, porque aí a discussão fica mais complexa. Existem relações pessoais, mulheres que se aposentam e adoecem depois... Muitas vezes a Justiça do Trabalho não consegue ver isso. O cuidado precisa também ser pensado juridicamente com esse foco, na humanidade e na subjetividade das pessoas.

- O amor e o afeto podem ser armas de combate ao racismo? Se sim, de que forma? E qual o lugar da raiva nisso?

Renato Nogueira - Existem diversas maneiras de performar o amor, inclusive narcísicas, quando só conseguimos amar o que nos espelha, e então construímos uma relação de violência para aquilo que não está no nosso domínio. O amor por si só não combate uma forma de opressão. O amor precisa ser articulado com outros sentimentos e práticas. Para que possamos enfrentar o racismo e outras formas de opressão, é preciso que haja coerência afetiva e que o amor seja compreendido como um projeto político. A raiva é uma emoção, mas pode funcionar como um sentimento, faz parte das emoções que nos mantêm vivos. É importantíssima. A raiva faz com que possamos reconhecer os limites entre nós e os outros, as fronteiras, o amor não pode ser só fusão. A raiva nos ajuda a nos diferenciarmos. Mas a raiva não precisa se transformar em sentimento de ódio e prática de destruição do outro. A raiva nos ajuda a estabelecer limites do que é justo, adequado, e então nos possibilita programar ações e práticas.

- As relações sociais no Brasil sempre foram baseadas na violência. Palmares foi um projeto de outro Brasil possível?

Aza Njeri - Nêgo Bispo [pensador quilombola] tem uma definição de quilombo como organização de pessoas negras (fugidas, no caso) que negavam o modelo ocidental de civilização. Então não era apenas fugir da escravidão, mas sim negar essa forma colonial de experienciar a vida. Nesse sentido, Palmares pode ser compreendido como uma República, mas não no modelo ocidental, e sim como uma experiência filosoficamente africana. Palmares era composto por dez mucambos, dez cidades, em uma extensão quase maior que Portugal naquele momento. Foi uma experiência de 100 anos que influenciou outras iniciativas na América do Sul, no Haiti, nos Estados Unidos. O quilombo é uma experiência que nega esse modelo de humanidade que nos desumaniza. É uma experiência cosmossensível, ética, que tenta compreender a humanidade que há em tudo.

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Fonte: Juliano Machado (Secom/TRT4)
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