TRT 4  Tribunal Regional do Trabalho Quarta
        Região
A+   A-  |  Início |  Fale Conosco |  Mapa do Site
Notícias
18/05/2017 09:47 | Em sarau emocionante, Memorial relembra processo trabalhista de professora da UFRGS perseguida na Ditadura
Imagem

Uma história de perseguição e sofrimento, que gerou um dos processos mais emblemáticos da Justiça Trabalhista gaúcha, contada por meio de música, poesia, teatro e com muita emoção. Esse é o resumo do “Sarau do Indizível”, promovido na noite dessa terça-feira (16) pelo Memorial da Justiça do Trabalho no Rio Grande do Sul. A atividade ocorreu na sede do Memorial, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, e lotou o espaço da apresentação.

Acesse aqui o álbum de fotos do evento.

O evento contou a história de Ignez Vieira de Castro, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) forçada a pedir demissão em razão da Ditadura Militar, na década de 70. Em 1989, ela ajuizou uma ação trabalhista, requerendo reintegração e outras verbas. O caso foi julgado pelo juiz José Felipe Ledur, hoje desembargador aposentado do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (RS). A apresentação teve a presença da própria Ignez, que hoje mora em Paris, do desembargador Ledur e do advogado Eduardo de Castro Campos, assistente do procurador da reclamante à época, Antonio Pinheiro Machado Neto.

O sarau foi conduzido pelo ator, diretor e professor Jairo Klein. Suas performances dramatizaram as peças do processo trabalhista e contextualizaram o período da Ditadura. Essa época da história brasileira também foi lembrada pela voz e violão da cantora Daisy Folly, que fazia intervenções ao longo da narrativa. O público presente leu textos e poesias relacionados ao tema, assim como trechos do processo. No telão, vídeos com depoimentos de Ignez e do ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont (testemunha na ação trabalhista à época) também ajudaram a relembrar os fatos. O desembargador Ledur, por sua vez, também relatou suas memórias sobre o julgamento do caso. Tudo “costurado” em uma sequência envolvente e emocionante.

Na entrevista gravada em vídeo, Ignez declarou satisfação em contar seu caso no evento do Memorial, para que situações como essa jamais se repitam na nossa história. Ao longo da narrativa, era visível em seu semblante a emoção de revisitar essa fase marcante e difícil de sua vida. “Talvez o Sarau do Indizível tenha sido uma possibilidade de resgate da sua dignidade e de reencontro com pessoas queridas e personagens desta história, atualizada que foi, com lirismo, amor, carinho e muito respeito à homenageada”, comenta a servidora Kátia Kneipp, do Memorial. O evento também foi prestigiado pela presidente do TRT-RS, desembargadora Beatriz Renck, que elogiou muito a iniciativa do Memorial em promover o sarau.

Em breve, o Memorial disponibilizará o vídeo do Sarau do Indizível.

Saiba mais sobre a história de Ignez Vieira de Castro

Ignez Vieira de Castro ingressou como professora na UFRGS em 1968, lotada no Instituto de Ciências Naturais e vinha seguindo carreira na docência. De 1969 a 1973, cumpriu bolsa de estudos no Laboratório de Química Biológica na Faculdade de Medicina de Paris, que resultou no título de doutora em genética. Nesse período em Paris conheceu na universidade o engenheiro francês Josefh Emile Guy Vallette, que veio a ser seu noivo e, posteriormente, marido.

Ignez dedicava-se à pesquisa e lecionava Genética Básica no Curso de Ciências Biológicas e no Curso de Odontologia da UFRGS.

Em fevereiro de 1974, sofreu acidente de carro e ficou gravemente ferida.

Seu noivo, à época, veio de Paris visitá-la e trouxe consigo cartas de exilados políticos brasileiros para seus familiares em Porto Alegre, fato que foi delatado, o que resultou na prisão dos dois.

Guy ficou 211 dias preso. Ignez, 45 dias presa. Ambos vários dias incomunicáveis. Sofreram tortura e sevícias.

Após a soltura de Ignez, a autora voltou a lecionar, mas continuou sendo vítima de perseguição e ameaças, tendo que se apresentar semanalmente à Auditoria Militar, onde era ameaçada. Na Polícia Federal, visitava seu noivo que continuara preso.

Com forte pressão do consulado francês e de intelectuais franceses, Guy foi expulso do Brasil em 24 de outubro de 1975.

Ignez, dois anos após, diante do indeferimento de seu pedido para cumprir nova bolsa de estudos em Paris, foi forçada a pedir demissão sob ameaça de voltar a ser presa. Assim o fez. Assinou o pedido de demissão, manchado de ilegalidade, o que depois seria reconhecido.

Após a abertura política e, ainda, após a promulgação da Constituição Federal de 1988, sentiu-se encorajada a reivindicar seus direitos perante o Judiciário Trabalhista. Pediu imediata reintegração na UFRGS em nível compatível, ou seja, mais elevado em que estaria se sua carreira não tivesse sido abruptamente interrompida, bem como outras verbas trabalhistas.

Foram testemunhas a favor da reclamante: Flávio Lewgoy, professor universitário, Crispina Pares Villardel de Garces (que compareceu ao Sarau do Indizível aos seus 91 anos de idade), espanhola e secretária do Consulado Francês em Porto Alegre, e Raul Pont, então deputado estadual (que não compareceu ao Sarau por ter viagem marcada para a data, mas concedeu entrevista ao Memorial sobre o processo, apresentada no Sarau).

A sentença favorável à reclamante foi prolatada pelo juiz, hoje desembargador aposentado, José Felipe Ledur (que também compareceu ao Sarau). O magistrado afirmou que os fatos narrados devem incutir em nós a plena consciência de que não se compadece com a dignidade do gênero humano que homens e mulheres sejam submetidos à tortura. O juiz condenou a UFRGS a reintegrar a autora no emprego, no cargo de Professor Adjunto ou em nível mais elevado eventualmente alcançado por colegas em igual situação em junho de 1975, assegurando-lhe outras vantagens e verbas trabalhistas.

Ignez retomou suas atividades na Universidade, mas dois ou três anos após, sem clima e sem estímulo, por tudo que passara, pediu sua aposentadoria e voltou a residir em Paris.

O processo seguiu em nível recursal voluntariamente ou ex ofício, tendo sido arquivado no ano de 2007.

Os autos chegaram ao Memorial pelas mãos do desembargador aposentado José Felipe Ledur, que o entregou ao desembargador João Paulo Lucena, presidente da Comissão Coordenadora do Memorial, quando prontamente foi selado para compor o acervo histórico do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região.

O processo judicial não reparou plenamente as demandas da autora.

Fonte: Secom TRT-RS


Anterior Próxima

Retornar